Tempo e espaço. Tempo e espaço.
O narrador destas linhas tem o poder de se movimentar pelo tempo e pelo espaço, desmaterializando-se e voando pelos intervalos de barreiras até então intransponíveis, saltando por entre climas e épocas, nadando em águas extensas que cruzam rios e mares. Observa cada pixel de vida, de um mundo que lhe aparece através de uma caixa de televisão, não esses plasmas ou lcd’s modernos, mas antes uma caixa robusta e gigante, com poder e peso suficiente para albergar todas as vidas, todas as almas, todas as vontades e contra-vontades de quem vive ou apenas se arrasta nesta infinita bola azul. Quando algo lhe chama a atenção, mergulha por entre o ecrã e acompanha os risos e as lágrimas de seres que nem imaginam que estão a ser observados, com a curiosidade óbvia de quem acompanha um big brother on line.
O narrador não tem o poder de interferir, apenas de observar. É uma das limitações desta curiosa inutilidade, que faz com que perante injustiças não consiga alterar o rumo dos acontecimentos. E ainda bem, porque os conceitos de injustiça variam de ser para ser, de alma para alma, de pixel para pixel.
Tempo e espaço. Tempo e espaço.
Tempo, algures no recuo de dez anos em relação ao calendário actual. Espaço, cidade capital de um país outrora influente no panorama mundial, agora esquecido na cauda de uma Europa velha e sabuja. Uma rua com uma fileira de árvores de cada lado, vivendas de dois andares, alguns carros de alta cilindrada estacionados à porta. O narrador observa a criança em pé, ao lado do pai, ambos agasalhados da chuva miudinha que cai e do vento que sopra, naquele ocaso de Outono. A criança não terá mais que três anos. Agarra-se à perna do progenitor, sem perceber muito bem o que faz ali. O pai tem o telemóvel encostado ao ouvido, o ar é grave e a expressão de desânimo. O narrador passa por entre a chuva da televisão e funde-se com a chuva miúda que cai, nadando em círculos em redor das duas almas, tentando perceber a razão daquele estar. O olhar cai numa porta envidraçada, que separa a varanda do escritório, no primeiro andar de uma vivenda. Por detrás da porta de vidro, um homem alto e bem-parecido observa os dois invasores da sua calma vivência, que ousaram importunar o momento de leitura do seu jornal diário.
O narrador voa até ali e encosta o ouvido ao telemóvel, que também está ao ouvido daquele homem austero e que quase se confunde com os cortinados pesados do escritório, lenço ao pescoço, fato caro e óculos na ponta do nariz, olhando com um misto de medo e curiosidade, lá do alto do primeiro andar. “Ele está aqui, tem a oportunidade de o conhecer, de o abraçar”, as palavras saem calmas e têm o dom de alterar a respiração do homem que as escuta. Uma mulher entra nesse momento no escritório, rosto fechado, autoritária, decidida. “Não”, rosna ela, puxando-o pelo braço…
Tempo e espaço. Tempo e espaço.
O narrador atravessa a porta de vidro e sai novamente para a rua, faz dois círculos em redor das duas almas que continuam em pé, ao frio e à chuva, e desaparece nos intervalos do tempo, recuando vários anos e deparando-se com outra cena que lhe chama a atenção. O homem do escritório discute com alguém que parece ser a sua filha. Dedo em riste, olhos de fogo, o aviso eterno: “nunca mais! Nem tu nem nada que tenha a ver contigo. Nunca mais!”. Como se o canal tivesse mudado, o narrador encontra-se agora a assistir ao parto daquela mulher. As dores transformam-se num rapaz de quatro quilos, que cresce ali à frente, transformando segundos em meses, choros em gargalhadas, gatinhar em andar, até se encontrar novamente em pé, ao lado do pai, ambos agasalhados da chuva miudinha que cai e do vento que sopra, naquele ocaso de Outono.
- Ele está aqui, tem a oportunidade de o conhecer, de o abraçar. É o seu neto, caramba!
O narrador já se encontra novamente no escritório, escondido, se preciso fosse, atrás dos altos e pesados cortinados. A mulher continua a agarrar o braço do homem dos óculos na ponta do nariz. Um “não, não” ecoa pelo escritório e rodopia dentro da cabeça do homem. O narrador posiciona-se agora ao lado dos dois vultos, naquela rua molhada e sentindo, também, o vento frio na face. A imagem por detrás da porta envidraçada vai-se afastando, devagar, recuando novamente para o sofá onde repousa, aberto, o jornal do dia. Agora, através do telemóvel do progenitor apenas se escuta o ruidoso barulho do silêncio. Por mais uns momentos ficam parados, ambos a olhar uma varanda vazia, que dá para um escritório, também ele com uma alma vazia. O progenitor pega no filho ao colo, abraça-o e afastam-se lentamente sem olhar para trás.
Tempo e espaço. Tempo e espaço.
Tempo, calendário actual. Espaço, cidade capital de um país outrora influente no panorama mundial, agora esquecido na cauda de uma Europa velha e sabuja. O narrador fixa a imagem da televisão num adolescente que tenta aprender a tocar violino, irritado por ter tantas aulas teóricas e tão pouca prática. Os pais adoram-no e ele orgulha-se dos sorrisos que abre nos corações de ambos. O narrador, com vários sopros, muda várias vezes de canal, até a imagem se fixar num escritório de um primeiro andar, com cortinados pesados e onde um homem lê um jornal vazio, cada folha depois de outra, alimentando uma alma despojada, um coração despido, um querer esvaziado, uma mente desfolhada, como as árvores daquela rua. Um homem que num segundo de decisão ficou preso para sempre naquele espaço. Um homem que não escutou o seu coração e ficou a saber que o tempo não volta atrás.
O narrador, lentamente, desliga a televisão.






Muito bem!
Gostei.
E dá muito que pensar, meu amigo!
Muito mesmo!
Abraço.
…a bordo…
INTENSO!
Tb não me admira.
Bjs.
Muito reflexivo!! Gosto!;)
Bonito e comovente!
bj
infelizmente ou felizmente o tempo não volta atrás!!
1 beijo.
Como sempre, mais um excelente texto, numa linha editorial, que penso deves seguir,mas para escrever um livro. fica o desafio lançado…..Quando tiveres mais tempo.
Abraço
O tempo não volta atrás…e às vezes fica perdido no espaço! Mais uma verdade de La Palisse de que nos falas e que nos faz repensar sobre aquilo que já sabemos!
Tempo perfeito para continuares a escrever e assinando por baixo do que o Mendonça diz, hora de encontrar um novo Espaço: Livro
Carpe Diem VG
Neste Espaço que eu considero de excelente Tempo passado, espero continuar a usufruir destes bons momentos de reflexão.
Mais uma vez Obrigado.
Tempo e espaço. Tempo e espaço.
Pouca terra . Pouca terra.
Huu huuuuu. Huu huuuuu.
VVRRRUUUN VRRUUUUUMM.
Chego finalmente a casa!…
Já todos a dormir.
Li. Tornei a ler.
Serei eu a cidade capital de um país outrora influente no panorama mundial, agora esquecido na cauda de uma Europa velha e sabuja?…
Este Alfa das Sete mais parece um tgv…
Sim, sim… Um Livro! Queremos um Livro! Quero um Livro!
Um grande Abraço!!