As folhas do jornal são desfolhadas lentamente e o olhar percorre cada página com evidente curiosidade. As mãos são jovens, lisas e brancas, unhas arranjadas e pintadas com um verniz vermelho vivo, transpirando alegria e vivacidade. De quando em quando uma pausa, para um gole na meia de leite e uma passa no cigarro fino e comprido, cujo fumo se dissipa lentamente, misturado com os acordes da guitarra portuguesa que saem daquele rádio grande por cima da máquina do café. Mais meia dúzia de pessoas estão espalhadas pelas mesas, em conversas que versam indubitavelmente a guerra nas colónias e o resultado do último derby lisboeta. A jovem lança um olhar furtivo aos clientes e debruça-se novamente na página do jornal. De repente estanca o olhar num anúncio que a faz sorrir. É este, sussurra para consigo, sinto que é este! Do rádio, a guitarra portuguesa faz um compasso de espera e uma voz canta que foi por vontade de Deus, que eu vivo nesta ansiedade…
A jovem sai do café e dirige-se para o apartamento, ao fim da rua. A sua silhueta na vitrina do café acompanha-a como uma irmã gémea, alta e elegante, com o cabelo preso ao cimo da cabeça, toda ela respirando optimismo e agonia, sofrendo antecipadamente por aquilo a que adivinhava ser amor. Que estranha forma de vida, esta de sentir paixão por alguém que não se conhece.
As cartas chegavam e partiam duas vezes por semana. Chegavam com selo de Angola, onde ele estava a trabalhar. Felizmente tinha ficado livre da tropa e aproveitara para fazer vida na promissora colónia. Partiam cheias de esperança e juras de amor. De espera eterna, porque não faz mal sofrer com esta dor. As cartas iam-se amontoando na mesa-de-cabeceira, gastas de serem lidas inúmeras vezes, palavras borradas das lágrimas felizes que por vezes caiam dos seus olhos, brilhantes e ansiosos. Por vezes julgava-se morrer de tanto amor, desvanecer nos sonhos que de olhos abertos vivia e nas noites em que, acordada, construía. Quando a espera se tornava cada vez mais insuportável, a carta chegou. Vou para aí, dizia, vendo aqui tudo e vou para aí. Vamos ser felizes ao lado um do outro. Sentiu-se desvanecer e o ar faltar-lhe. Sentou-se e tentou recompor-se. Conseguiria sobreviver a tamanha sensação? Olhou para o calendário e começou a contar as semanas, dias intermináveis, horas sem fim, minutos infinitos…
A manhã estava fresca e a azáfama natural fazia-se sentir naquele cais, cada vez que chegava um paquete de Angola. A maioria esperava filhos, namorados e maridos, combatentes na guerra e que regressavam à metrópole. Choros de alegria mas também de sofrimento, quando caixas compridas e rectangulares eram descidas com pesar para o pontão. Fardas, miúdos, flores, ruídos, cheiros, tudo se misturava naquela manhã em que a vida recomeçava e os sonhos eram mais rápidos que o próprio pensamento. A jovem agarrava descontroladamente a mão da prima, dois anos mais velha, enviada pela família para tutorar o encontro. E é no meio de fardas verdes e sombrinhas abertas que ele desce a prancha, fato creme, chapéu branco, bigode fino, elegante, sorridente, respirando confiança, decidido. Um abraço. O primeiro beijo. Aquele olhar cúmplice e silencioso que tudo revela.
Os cinco dias seguintes foram passados na aldeia do litoral Oeste, de onde a jovem é natural. Tinha sido essa a exigência da família. Era o que faltava ele ir para o apartamento de Lisboa! Não senhor. Iria para casa dos pais dela, para se conhecerem e saberem das suas intenções. De dia passeavam por entre as vinhas e pomares, de mão dada e sempre com a sombra da prima por perto. Faziam piqueniques junto ao riacho que passava perto do moinho e ele contava-lhe histórias da colónia lá longe, onde a vida é diferente e fervilha a olhos vistos. Ela falava-lhe da sua infância e da ida para Lisboa, para tomar conta de uma tia, já falecida. Por lá tinha ficado, onde entretanto arranjara emprego como secretária numa empresa de importação. À noite, e depois do jantar, ela ficava à janela do quarto e ele na rua, conversando e dando um beijo furtivo antes de ir para a casa do tio dela, na rua acima, onde dormia. Ao final do quinto dia ele teve que partir. Iria ao Norte, de onde era natural, tratar de assuntos pessoais e regressaria o mais rápido que pudesse. Promete que me escreves, pediu ela. Não só escrevo, como te telefono todos os dias, afiançou ele. As lágrimas correm e testemunham a separação que se adivinha dolorosa. O comboio parte e com ele a felicidade do momento. Fica a esperança de uma espera rápida. Desfaz a curva e não resta agora mais que o barulho de um coração que bate descompassadamente, já com a saudade a entranhar-se na pele e a dissolver-se no sangue, como veneno. Um veneno bom.
As cartas vão chegando assiduamente. O carteiro sorri maliciosamente quando as entrega, lançando um piropo alegre e descontraído. À noite ela desloca-se ao café da aldeia, e à hora estipulada recebe o telefonema diário, onde as saudades são desfeitas momentaneamente, e se juntam novamente assim que o telefone é desligado. Sai do café perante os olhares dos varões que se questionam do porquê de ela ir arranjar homem tão longe, com tantos disponíveis e cheios de boas intenções ali tão perto. O amor não escolhe lugar nem distância, respondia ela às provocações, com ar tímido mas decidido.
Naquele dia não chegou a carta. Nem à noite o telefonema. Nem no dia seguinte. Nem no outro. O carteiro já não sorri quando é interpelado pela jovem. Os homens do café já não brincam com ela, quando tristemente recolhe a casa depois de mais uma espera pelo telefonema que não chegou. O mundo começou a ficar cada dia mais pesado, quase a desabar. Dia após dia, mês após mês, a esperança foi morrendo, a revolta foi crescendo. Da velha telefonia lá de casa surge a voz de Amália, o fado triste chorando pelas paredes do quarto, foi por vontade de Deus, que eu vivo nesta ansiedade…
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As folhas do jornal são desfolhadas lentamente, o olhar percorre cada página distraidamente, lendo coisa nenhuma, apenas para passar o tempo. As mãos têm as rugas de uma vida, mãos que viveram décadas, que trabalharam e criaram duas filhas, três netos, mãos que levantaram os braços bem alto para o recomeço de uma vida que parecia perdida. Não podia dizer que não tinha sido feliz. O marido, já falecido, tinha sido mais que um amante, um verdadeiro amigo. As filhas criadas e os netos a entrar para a faculdade. A ela, agora, bastava-lhe que os dias fossem passando, com saúde e com algumas idas regulares ao Oeste, onde continua a ter família. Não, a vida não lhe fora madrasta, tinha construído algo e fora feliz. O olhar cruza-se com a televisão de plasma que está suspensa na parede do café. Como este tinha mudado ao longo do tempo! Um programa de homenagem à Diva do fado, pelos dez anos da sua morte passa no ecrã. Olhos fechados, mãos agarradas ao xaile preto, ganha vida ao cantar o destino, que estranha forma de vida, tem este meu coração: vive de forma perdida, quem lhe daria o condão, que estranha forma de vida!
Sai lentamente do café, com destino ao velho apartamento ao fim da rua. Ouve um chamamento. Primeiro baixinho, depois com mais intensidade,
- Graciete.
Não sabia de onde vinha a voz, não havia ninguém conhecido ali perto.
- Graciete. Sou eu!
Voltou-se e foi então que o viu. Fato cinzento e colete, o cabelo branco e as rugas do tempo que não viveram juntos na face. O olhar era o mesmo, com aquela intensidade e vitalidade de há cinquenta anos atrás. Lentamente abre a carteira e tira uma foto, a preto e branco, gasta pelo tempo, gasta pelas vezes em que a consumiu com o olhar. Uma foto que tinha viajado dentro de um envelope para Angola, tinha regressado e vivido junto ao coração a que pertencia. Queria explicar, mas não se explica uma vida num momento. Queria falar no poder que a família tinha exercido contra aquele casamento, mas não foi capaz. Queria falar do acidente que o atirou meses para a cama do hospital, mas não conseguiu. E quis falar de como a veio a encontrar mais tarde, casada, com filhas, e de como não teve coragem para se intrometer nessa vida estável. Também não o fez. Apenas mostrou a foto, olhos embaciados e voz embargada. Ela aproximou-se, pegou-lhe na mão por um momento. Olhou para a silhueta de ambos na vitrina do café. Uma silhueta a preto e branco, ela com o cabelo preso ao cimo da cabeça e ele de fato creme, chapéu branco, bigode fino, elegante, ambos envolvidos num abraço cúmplice. Voltou a olhar para ele e sorriu, largando a mão lentamente, voltando-se e regressando a casa sem olhar para trás, cantando baixinho em dueto com Amália, eu não te acompanho mais: pára, deixa de bater, se não sabes aonde vais, porque teimas em correr, eu não te acompanho mais…






Numa palavra….. Emocionante! Adorei a história, apetecia ler mais!
Encontros e desencontros….a vida é mesmo isto… uma verdadeira viagem recheada de supresas!
Maravilhoso! adorei a forma como consegues fazer-me regressar ao passado, é uma história, mas não muito diferente de algumas realidades lá para os anos 70…
curioso como recordo tão bem de ver (não ler!) os aerogramas e cartas escritas com uma regularidade quase britânica, com palavras de promessas certamente…. e as histórias que revi na minha memória, das esperas do carteiro, tão familiar! tives vários tios nas colónias por isso ouvi anos mais tarde as histórias dos namoros/madrinhas de guerra etc., eu como sonhadora de olhos abertos sempre adorei as conversas dos mais velhos e fantasiar as histórias de amor vividas.
Muitissimo Bem!!
Bjs
Mudam-se os tempos mudam-se as realidades, mas permanecem sempre as mesmas verdades…
e essas surgem no tempo, permanecem no tempo e continuam no tempo… mesmo que em diferentes espaços…
Mas as almas gémeas existem
Conheço um caso semelhante, só que passados 50 anos acabou num novo casamento
…a bordo…
Como sempre no teu melhor… espectacular.
Abraço
Fiquei com as lágrimas a quererem cair…
Intemporal.
Devias escrever um romance…
Beijo
!Sou um fá incondicional de Amália, e encontrei por acaso esta História e Adorei! Esta Fantástica! Parabéns!!
Obrigado José.
Um Alfa das Sete encontra-se em manutenção, atrevo-me a dizer, para todo o sempre!
Mas pode ser que, como canta Amália,
…”Sabe-se lá
Quando a sorte é boa ou má
Sabe-se lá
Amanhã o que virá”…
…e um dia mais tarde O Alfa entre novamente ao serviço!
Um abraço.