Dou uma última afinação na electroválvula e ligo o circuito de teletransporte. Afasto-me um pouco e fico a observar aquela amálgama de ferro, plástico, fios e fibra, em forma oval e de onde se pode ver destacadamente uma confortável cadeira com um pequeno visor diante dela. Estou exausto e ainda não percebo como fui capaz de construir esta máquina com os meus inexistentes conhecimentos de mecânica, electrotecnia e biotecnologia. Algo me tinha impulsionado a fazê-lo, a meio da noite, naquele limbo entre o sono e o despertar, onde os movimentos mecânicos das mãos apertaram parafusos, fizeram ligações eléctricas e soldaram chapas e ferros. E agora, sem saber se ainda estava acordado ou num sono profundo, ali estava ela, brilhante e chamativa, com a porta aberta e o manípulo ao lado do visor a pedir uso. A minha obra prima construída em tempo recorde. A minha máquina do tempo!
Olho para o espelho enquanto seco a cara molhada com uma toalha. Chegara o momento de testar o aparelho. Vejo uma expressão preocupada e dúvidas que pairam em seu redor. Será que vai funcionar? Pouso a toalha e dirijo-me para a máquina, devagar e a ponderar se a irei testar ou se o mais correcto será dar início imediatamente ao seu desmantelamento. Lembro-me de uma frase ouvida há algum tempo de uma pessoa que muito admiro: “nesta vida, prefiro arrepender-me daquilo que faço, do que arrepender-me de nunca o ter feito”! Dou um salto para a cadeira, fecho a porta e primo o botão start, situado na parte de cima do manípulo. Primeiro um tremor, depois algum fumo. No visor aparecem riscos de várias cores, sem nexo, aleatoriamente. A máquina treme com mais intensidade, enquanto empurro o manípulo para a frente. O fumo entra-me pelas narinas e tenho dificuldade em respirar. A vibração é quase insuportável. Mesmo assim empurro o manípulo com mais força, os parafusos rodam descontroladamente, a cadeira salta furiosamente em cima das molas, o fumo ocupa totalmente a cabina, o meu cérebro já não processa informação alguma, entrando em buracos vazios, um corpo desfeito em moléculas, moléculas em átomos, um turbilhão de protões, electrões e neutrões até ao vazio, até à exaustão, até ao silêncio…
Lentamente desperto desta letargia e olho em meu redor. Estou num comboio suburbano em direcção a Coimbra. Vários passageiros conversam entre si, outros lêem o jornal. Na mão tenho apenas o manípulo da minha máquina, que imediatamente guardo no bolso. No painel de informação aos passageiros a indicação de 14 horas e 25 minutos. Agarro num jornal abandonado em cima do banco da frente e vejo a data.
4 de Abril de 2002.
Fico gélido perante esta visão. O jornal treme-me nas mãos e escapa-se por entre os dedos. A máquina fez-me regressar ao pior dia da minha vida. O dia dos horrores. O regresso ao passado para uma purga interior, uma catarse, um encontro com o diabo. A porta que dá acesso à cabina de condução abre-se lentamente, como se fosse em câmara lenta, como nos sonhos que não conseguimos controlar. Queremos fugir e não conseguimos, apetece-nos levantar e o corpo fica preso no lugar. O maquinista do comboio dirige-se a mim com ar grave e eu quero que ele volte para trás, não quero que fale comigo, não quero ouvir o que ele me vai dizer. A força que faço não surte efeito e da sua boca saem as palavras que trucidam, torcem, vandalizam-me ainda mais as entranhas,
- chocaram dois comboios em Miranda do Corvo e parece que há mortos.
e eu a fazer uma expressão de assombramento e a tentar esconder a dor, a tentar esconder que já sabia de antemão dos cinco mortos no choque frontal das automotoras, dos três colegas de profissão, do amigo com quem partilhava sorrisos e por quem sentia tamanha admiração. Já estou no meio dos destroços, e se o inferno existe, não deve ser muito diferente disto. Óleo misturado com sangue, ferro com roupas, linhas torcidas e vidros partidos. As lágrimas correm-me descontroladamente, o coração bate-me dentro da boca, levito em vez de caminhar. Num ápice estou no hospital de Coimbra, a pouco e pouco vou vendo alguns dos meus colegas de formação, pensos, ligaduras, olhares vazios. Alguns não irão aparecer. Recuo um dia e estamos num restaurante da cidade a jantar. Falamos de coisas banais, contas-me o teu sonho de ir ao Brasil com a tua mulher e as tuas filhas, deixar para trás a rotina do trabalho e do dia a dia. Depois do cinema caminhamos a pé pela cidade e desenhamos o futuro em palavras. No dia seguinte de manhã partilhas um beijo com a tua mulher, pelo telemóvel. Ao almoço, deixo-vos todos juntos e regresso mais cedo a casa. Um abandono empurrado pelo destino, o meu lugar nesse comboio tomado pelo diabo, a minha alma condenada a viver na eternidade da revolta e da dor. As tuas filhas condenadas a crescer sem o teu carinho. A tua mulher condenada a viver sem o teu abraço. Eu condenado a viver sem a tua amizade. Faz frio, encolho-me e enfio as mãos nos bolsos. Encontro um manípulo e sem pensar carrego no botão. O fumo, a trepidação, o meu corpo desfeito em moléculas, moléculas em átomos, um turbilhão de protões, electrões e neutrões até ao vazio, até à exaustão, até ao silêncio…
Sangue. E sorrisos. E lágrimas. E felicidade. Que mistura é esta de estares, que provocam tamanhos sentimentos no meio de uma sala de operações? Estou a filmar pessoas vestidas com batas verdes, toucas brancas, bisturis, luzes, tudo vejo através do ecrã da máquina digital que seguro na mão. Reparo na data no canto inferior direito.
4 de Abril de 2004.
Sorrio com a expectativa da vivência deste dia. Talvez o dia mais feliz da minha vida. A mão treme-me e passado pouco tempo entra no ecrã um pequeno bebé sujo e enrugado, ainda ligado ao seu bebedouro de vida pelo cordão umbilical. O bebé mais bonito que eu já vi, com um choro que ecoa pelo espaço, um choro que precede momentos de muita alegria que irá partilhar com a família e amigos. Saio cheio de emoções daquela sala e abraço o meu primo que me espera lá fora. E mais abraços. E mais beijos. E alegria. Sou pai. Para toda a vida. Olho-a através do vidro e vejo-a crescer lentamente. Vai somando aniversários, vai somando sorrisos atrás de sorrisos. Vai somando felicidade que não se limita a guardar, pelo contrário, distribui por todos os que a amam. É doce e amiga. É um anjo azul que me entra nas veias e adormece por longos períodos as revoltas e as injustiças. É a mulher da minha vida.
- pai, vou viver para outro país.
Os dois abraçados, encolhidos e esmagados pelo peso do destino. Os pratos da balança a competirem entre si, o da revolta e o da aceitação. Nenhum ganha. Perdemos nós os dois. Os soluços que de tanto estarem encravados se soltam como rugidos, saindo em liberdade, a dor que se expande e acalma. E ela, adulta e firme, no alto dos seus quase 6 anos, com a pata do seu urso de peluche a limpar-me os olhos,
- eu nunca te vou esquecer,
firme e hirta, maternal, a tomar conta de mim, os olhos azuis brilhantes e a tentarem dominar a situação,
- eu nunca te vou esquecer, pai!
Abraço-a como se fosse a última coisa que faço no mundo e sem querer aperto um botão de um manípulo que estava debaixo da almofada. O fumo, a trepidação, o meu corpo desfeito em moléculas, moléculas em átomos, um turbilhão de protões, electrões e neutrões até ao vazio, até à exaustão, até ao silêncio…
Estou parado em frente ao meu portátil. Olho para a data.
4 de Abril de 1010.
Não vejo máquina de tempo alguma. Nem manípulos. Apenas um ecrã com caracteres disformes e embaciados. Teclas molhadas que humedecem as pontas dos dedos com que escrevo. Hoje é dia de aniversários. Aniversários da morte e da vida. Como pode a mesma data ser tão antagónica? Como pode a mesma data ser comemorada ou sentida de forma tão diferente? E porque está este conto na secção linhas imaginárias, se a dor e a alegria se misturam na realidade?
Porque, filha, eu quero imaginar que para a semana quando estiveres a fazer o check in no aeroporto, estejas a dizer-me um até já bué rápido, que juntos consigamos transformar anos em meses, e condensar meses em semanas, e encurtar semanas em dias, para que o teu mágico abraço converta novamente a vida em cores vivas e alegres.
Porque, Nach, eu quero imaginar que amanhã quando entrar de serviço te vou ver de manhã com aquele sorriso peculiar e me vais perguntar,
- então Cipras, como é?
E eu vou-te responder, como habitualmente,
- aquela máquina, amigo, sempre aquela máquina!






Mais uma vez me deixaste com o coração apertado.
Vai tudo correr bem de certeza.
Beijinho
Quatro de Abril de um ano que não deveria ter existido…
Quatro de Abril de um outro cheio de motivos para festejar…
Não costumo deixar comentários á tua escrita que provoca sorrisos, tristezas, alegrias, recordações e o desejo de ler ler sem fim, embora seja um passageiro assíduo que viaja em silêncio mas sempre muito atento neste teu alfa das sete.
Mas hoje não!! Hoje não poderia ficar em silêncio. Hoje queria ser o primeiro. Hoje também tenho motivos para escrever, motivos para metade de mim chorar como uma criança a quem se lhe roubou qualquer coisa que tanto estimava, e a outra metade estar feliz, muito feliz, pelo dia em que ganhaste o direito de poder chamar filha a um ser que faz parte de ti e ouvires essa palavra tão pequena mas que tanto nos completa quando nos chamam de “PAI”. É madrugada, estou sózinho frente a um computador onde de alguma forma me “obrigaste” a recordar aquilo que simplesmente nunca queria ter de recordar e por outro lado onde sinto a necessidade de escrever o que te queria desejar apenas depois do nascer do sol…
Parabéns Cipriano pela filha linda que tens. Parabéns porque foste pai. Em todos os Quatro de Abril é isto que te quero dizer, é isto que temos de celebrar, porque o nosso querido Nach, esse, jamais saírá de nossos corações!!! Aquele abraço e parabéns.
Paulo Bento
Pois é…! é a Vida. Boa Páscoa.
Olá,
Hoje vou sair do meu silêncio e fazer um comentário. “É bonito, o passado, mas o que importa é o que aí vem.”
Foste tu quem mo escreveu e é para ti que o reporto. Maldito 4 de Abril, Bendito 4 de Abril.
A vida dá voltas e reviravoltas mas o equilibrio é sempre encontrado. Não desanimes. O amor mesmo longe não morre e tu serás sempre o homem mais importante na vida da mulher a quem chamas filha.
Beijoca boa
Olá. Fizeste-me chorar! Como naquele dia em que pelo rádio soube do brutal acidente; como naquele já longuinquo dia de Agosto em que também fui Pai pela primeira vez; como em tantas outras datas que agora relembradas se tornam num turbilhão de emoções, de alegrias e tristezas, de dor, de amor, de sentimentos que todos nós, comuns mortais, transportamos. Mário meu grande malandro: – Hoje fizeste-me chorar . Bem hajas. Abraço
Confesso que também fiquei de lágrima no olho só de imaginar a cara da menina de olhos azuis a dizer “pai, vou viver para outro país…” provas difíceis as que a vida nos propõe por vezes!
Texto muito bom…mais uma vez prende-nos ao “ecrã” !
Carpe Diem VG
Amigo,
Por muito que te possa dizer, existem alturas que não vale a pena. A única coisa que te quero expressar, é que podes contar comigo, naquilo que te possa ajudar.
Aquele abraço.
Pois é, desta vez tem de ser…
Ainda bem que pude estar presente nesses 2 importantes abraços. Um de alívio, enfim, não tinhas sido tu e mais uma vez conseguiste enganar a morte… O outro, esse de um futuro e amedrontado pai, para um, acabadinho de o ser, super emocionado a ver a sua bebé, e que só sabia dizer “é linda… é linda…”
O futuro, esse… cá estamos.
Mais uma vez obrigado pelos sentimentos que transmites com a escrita, sentimentos que nos deixam pensativos.
Chegou-me agora o link do teu blog, e fiquei muito sensibilizado. Todos nós partilhámos esse terrível 04/04/2002. Lembro-me que estava no cinema, nessa tarde, quando me ligaram da empresa. Li na voz embargada da minha chefe o triste desfecho no nosso Nash (e restantes colegas). Chorei bastante. Conhecíamo-nos desde 1989 e fomos colegas de curso. Tínhamos os números seguidos na Empresa. Profissionalmente, éramos as pessoas mais próximas. Partilhávamos o mesmo gabinete e a companhia no almoço. Falo nele frequentemente e ainda penso muito na falta que me faz, no seu espírito altruísta, na sua inteligência e no bom humor que cultivava. Sempre acreditei e gosto muito dele. Mas ainda me pesa sobre os ombros o facto de ter pensado em si para me acompanhar nesta caminhada profissional. Um dia, quando o encontrar, terei a coragem de lhe pedir desculpa por esse facto. E finalmente chegará a hora de lhe entregar, como combinado, a peça em cerâmica, oferta de Natal que poucos dias antes fui levantar a Stª Apolónia. Até lá aguarda intocável em minha casa, no mesmo armário de sempre e dentro do original saco verde de papel em que me foi entregue. E também lá deve estar o alicate multifunções; quem sabe lhe dará algum jeito para as suas engenhocas de hardware ou BTT.
Até sempre, grande amigo
P.S. Gostaria de saber como estão hoje as suas “fofinhas”. Sei que pouco tempo depois também perderam os avós. Foi muito azar em pouco tempo!