O comboio desliza devagar ao longo da linha e com um pequeno solavanco efectua paragem. Desço para a gare e observo os passageiros que terminam a viagem. São poucos, mas saem satisfeitos. Muitos entraram a meio e saíram entretanto. Outros viajaram por engano. Alguns fizeram-me companhia desde o início desta viagem, neste comboio que por vezes se desmaterializou e teve passagens de Luanda a Maputo, de São Vicente a Paris. Um comboio que viajou em Portugal pela lezíria ribatejana, pelo Porto e restante linha do Norte, passou pelo Bombarral, pelo Outeiro, por Dois Portos, por Mafra. Um comboio que ganhou asas e voou pelos céus de Lisboa e do resto do mundo, cheio de crianças, ou que passou por ilhas imaginárias de rainhas, príncipes e fadas. Um comboio que levou fantasias e sonhos e, mais que aos passageiros, fez o seu maquinista sorrir e chorar. Fê-lo recordar alegrias e tristezas.
O Alfa das Sete chegou ao fim. Bom, ao fim nunca chegará, pois nada é contingente. De qualquer modo, e após várias reuniões com a área comercial chegou-se à conclusão de que a composição deveria ser alvo de uma reparação. Uma longa reparação. Tal como na vida real, pode ser que as pessoas se esqueçam e a linha encerre de vez. A contestação inicial termina sempre no esquecimento.
Em nove meses foram transportados quase seis mil passageiros. Pessoalmente, achei a experiência gratificante. Tenho a certeza de que para muitos também o foi. No entanto, a euforia inicial foi dando azo a algum desalento. Queremos sempre mais e melhor. A motivação desce quando isso não acontece. Assim, por sugestão da Administração, o comboio vai parar e este maquinista vai tirar uma licença sem vencimento. Por período indeterminado. Com a satisfação do dever cumprido e com a expectativa de vencer em actuais e novos desafios.
A composição recua agora para dentro da oficina de manutenção. Colaboradores oficinais aproximam-se e fazem sinal de paragem. A alguns agradeço publicamente o apoio dado nestas viagens. Ao Paulo Bento e ao Manuel Flores, principalmente. Avisto alguns passageiros que me esperam na gare. Os que deixaram comentários no Diário Técnico de Bordo, os que me incentivaram por mail, tanto aos que tiveram palavras de apreço e carinho como os que criticaram com a finalidade de melhorar. Aceno-lhes e agradeço. Actuo o freio do comboio. Os calços que apertam os rodados. O disjuntor que se desliga. O pantógrafo que desce. A bateria que se desliga. A porta que se fecha. Afasto-me com um misto de nostalgia e alívio. Valeu a pena. Sim, valeu a pena!
Recuo no tempo de há nove meses atrás. Recordo o dia em que a brisa soprava lenta e fria. Quando pensava em chegar, mesmo antes de partir. Na pergunta, que permanece sem resposta:
- terá fim esta viagem?…






Resta saber se o “encerramento” se deve a razões de razoabilidade financeira… essa desculpa já a ouvi há uns anos e hoje não acredito.
Seja como for, obrigado!
Olá Dario,
)
Digamos que essa “desculpa” não serve para este tipo de exploração.
São razões de razoabilidade pessoal. Por vezes é necessário parar e pensar.
Um abraço e obrigado também pela companhia nesta viagem.
Abraço.
Gostei do que li mas fiquei triste…
Não gosto de ver partir um amigo.
Li muitas vezes… não comentei as suficientes.
Gostava de ter a coragem que tiveste quando começaste a publicar o que escreves.
Continua quando for possível ou quando tiveres vontade.
Deste lado haverá sempre quem queira ler.
Um beijinho para o meu maquinista preferido
Ana
Olá Ana,
Os amigos nunca partem. Estejam onde estiverem, estão sempre presentes.
Um beijo de coragem e de incentivo.
Foi com tristeza que li este texto. Espero que a viagem não tenha chegado ao fim. Que seja só um “até já bué rápido”.
Tenho a certeza que irás superar a espectativa de venceres os novos desafios a que te propões.
Felicidades
Beijo
Olá Ângela,
O tempo o dirá. Por agora também irei ser passageiro.
Obrigado. Um beijo.
Sem comentários…e agora onde vou ler os teus textos super interessantes…? Um abraço, deste colega e amigo, A. Romao
Outro abraço igual, a um dos meus fieis passageiros.
Obrigado.
Por vezes também precisamos de nos refurgiarmos nos nossos pensamentos e guardá-los só pra nós.
Apesar de achar que não vai ser um adeus, mas sim um até já, devo dizer que já sinto uma imensa saudade das tuas viagens.
Abraço e bom descanso.
Gabi
Confesso que também já sinto saudades dos teus habituais comentários.
Forte abraço e boas viagens também para ti… mesmo sem Alfa das Sete!
Amigo Mário,
As pausas são sempre boas conselheiras, pelo que vejo a paragem desta composição como um momento de refinamento e não quero acreditar numa desistência antecipada.
Os grandes Homens sabem quando devem dar um passo atrás para preparar melhor os dois que querem dar em frente.
Vai em frente com os desafios que se afiguram por agora e nos quais eu te desejo o maior sucesso, mas mantém no teu horizonte uma linha aberta para que o Alfa das Sete volte a fazer sonhar os seus viajantes.
Aquele abraço
Amigo António,
Tal como no xadrez, por vezes há que saber sacrificar um peão para proteger um bispo ou uma torre. Ou sacrificar um cavalo para poder atacar com a dama.
Neste caso, penso estar a proteger algumas peças da minha vida, sacrificando este Alfa.
Talvez um dia, numa manhã de nevoeiro, a composição regresse à linha. Talvez um dia…
Obrigado pela tua companhia e presença.
Forte abraço.
Meu Caro!
Não sei o que te diga…
…Não sei!
É como se fosse eu…
Tu sabes que eu sou assim!…
Abraço.
Por isso este meu comentário vai ser assim, vazio.
Porque há coisas que não se escrevem e que seguramente tu as saberás ler!
Grande abraço.
Mário
Recordo uma das tuas primeiras viagens no “Alfa das Sete,” aquela da velha…da morte da ovelha, isto aconteceu porque o pastor deixou a desdita à deriva. Às vezes é preciso reunir o rebanho para que ele não se disperse e não se reduza.
Penso que é o que estás a fazer agora. Arrumar as coisas cada uma no seu lugar…
Tenho a certeza que o “alfa” irá circular de novo sobre carris …se não for o das “sete” será das “oito” ou das “dezassete”, mas não deixes de conduzir a locomotiva …nem que seja uma velha dresina…porque tenho a certeza que nesse veículo haverá um pequeno espaço disponível para um velho passageiro que te acompanhará sempre em todas as tuas viagens, quer o comboio circule em alta velocidade…quer circule em “marcha á vista”.
Um apertado abraço…Obrigado.
Não é preciso haver Alfas, locomotivas ou dresinas para que haja espaço para ti.
Sei que esse velho passageiro me acompanhará sempre.
Um abraço.
Bolas… Bolas… Bolas!!! Então e eu???? Fico no desemprego é?!
Estou a brincar com algo que me deixa triste, mas que sou obrigado a respeitar. A vida tem prioridades e apenas tu saberás quais as tuas, mas espero que os “gajos da oficina” reparem esse alfa depressa porque embora tenha sido um passageiro em silêncio, estive e quero voltar a estar no banco de trás da tua cabina. Obrigado Cipri por permitires que te acompanhasse. Aquele abraço, PB
Amigo, quem agradece sou eu e, seguramente, as pessoas que tiveram o privilégio de admirar os teus formidáveis bonecos!
Quanto ao regresso, não se afigura algo fácil. Ontem li, no meio de todo o lixo que impera no Facebook, algo que aproveito para aqui, com a devida vénia à autora: ” O valor das coisas não está no tempo em que elas duram, mas na intensidade com que acontecem”.
Esta viagem durou o tempo que durou. Curta ou comprida, fi-la com intensidade!
Forte abraço.