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A Viagem II

O comboio desliza devagar ao longo da linha e com um pequeno solavanco efectua paragem. Desço para a gare e observo os passageiros que terminam a viagem. São poucos, mas saem satisfeitos. Muitos entraram a meio e saíram entretanto. Outros viajaram por engano. Alguns fizeram-me companhia desde o início desta viagem, neste comboio que por vezes se desmaterializou e  teve passagens de Luanda a Maputo, de São Vicente a Paris. Um comboio que viajou em Portugal pela lezíria ribatejana, pelo Porto e restante linha do Norte, passou pelo Bombarral, pelo Outeiro, por Dois Portos, por Mafra. Um comboio que ganhou asas e voou pelos céus de Lisboa e do resto do mundo, cheio de crianças, ou que passou por ilhas imaginárias de rainhas, príncipes e fadas. Um comboio que levou fantasias e sonhos e, mais que aos passageiros, fez o seu maquinista sorrir e chorar. Fê-lo recordar alegrias e tristezas.

O Alfa das Sete chegou ao fim. Bom, ao fim nunca chegará, pois nada é contingente. De qualquer modo, e após várias reuniões com a área comercial chegou-se à conclusão de que a composição deveria ser alvo de uma reparação. Uma longa reparação. Tal como na vida real, pode ser que as pessoas se esqueçam e a linha encerre de vez. A contestação inicial termina sempre no esquecimento.

Em nove meses foram transportados quase seis mil passageiros. Pessoalmente, achei a experiência gratificante. Tenho a certeza de que para muitos também o foi. No entanto, a euforia inicial foi dando azo a algum desalento. Queremos sempre mais e melhor. A motivação desce quando isso não acontece. Assim, por sugestão da Administração, o comboio vai parar e este maquinista vai tirar uma licença sem vencimento. Por período indeterminado. Com a satisfação do dever cumprido e com a expectativa de vencer em actuais e novos desafios.

A composição recua agora para dentro da oficina de manutenção. Colaboradores oficinais aproximam-se e fazem sinal de paragem. A alguns agradeço publicamente o apoio dado nestas viagens. Ao Paulo Bento e ao Manuel Flores, principalmente.  Avisto alguns passageiros que me esperam na gare. Os que deixaram comentários no Diário Técnico de Bordo, os que me incentivaram por mail, tanto aos que tiveram palavras de apreço e carinho como os que criticaram com a finalidade de melhorar. Aceno-lhes e agradeço. Actuo o freio do comboio. Os calços que apertam os rodados. O disjuntor que se desliga. O pantógrafo que desce. A bateria que se desliga. A porta que se fecha. Afasto-me com um misto de nostalgia e alívio. Valeu a pena. Sim, valeu a pena!

Recuo no tempo de há nove meses atrás. Recordo o dia em que a brisa soprava lenta e fria. Quando pensava em chegar, mesmo antes de partir. Na pergunta, que permanece sem resposta:

– terá fim esta viagem?…

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Dou uma última afinação na electroválvula e ligo o circuito de teletransporte. Afasto-me um pouco e fico a observar aquela amálgama de ferro, plástico, fios e fibra, em forma oval e de onde se pode ver destacadamente uma confortável cadeira com um pequeno visor diante dela. Estou exausto e ainda não percebo como fui capaz de construir esta máquina com os meus inexistentes conhecimentos de mecânica, electrotecnia e biotecnologia. Algo me tinha impulsionado a fazê-lo, a meio da noite, naquele limbo entre o sono e o despertar, onde os movimentos mecânicos das mãos apertaram parafusos, fizeram ligações eléctricas e soldaram chapas e ferros. E agora, sem saber se ainda estava acordado ou num sono profundo, ali estava ela, brilhante e chamativa, com a porta aberta e o manípulo ao lado do visor a pedir uso. A minha obra prima construída em tempo recorde. A minha máquina do tempo!

Olho para o espelho enquanto seco a cara molhada com uma toalha. Chegara o momento de testar o aparelho. Vejo uma expressão preocupada e dúvidas que pairam em seu redor. Será que vai funcionar? Pouso a toalha e dirijo-me para a máquina, devagar e a ponderar se a irei testar ou se o mais correcto será dar início imediatamente ao seu desmantelamento. Lembro-me de uma frase ouvida há algum tempo de uma pessoa que muito admiro: “nesta vida, prefiro arrepender-me daquilo que faço, do que arrepender-me de nunca o ter feito”! Dou um salto para a cadeira, fecho a porta e primo o botão start, situado na parte de cima do manípulo. Primeiro um tremor, depois algum fumo. No visor aparecem riscos de várias cores, sem nexo, aleatoriamente. A máquina treme com mais intensidade, enquanto empurro o manípulo para a frente. O fumo entra-me pelas narinas e tenho dificuldade em respirar. A vibração é quase insuportável. Mesmo assim empurro o manípulo com mais força, os parafusos rodam descontroladamente, a cadeira salta furiosamente em cima das molas, o fumo ocupa totalmente a cabina, o meu cérebro já não processa informação alguma, entrando em buracos vazios, um corpo desfeito em moléculas, moléculas em átomos, um turbilhão de protões, electrões e neutrões até ao vazio, até à exaustão, até ao silêncio…

Lentamente desperto desta letargia e olho em meu redor. Estou num comboio suburbano em direcção a Coimbra. Vários passageiros conversam entre si, outros lêem o jornal. Na mão tenho apenas o manípulo da minha máquina, que imediatamente guardo no bolso. No painel de informação aos passageiros a indicação de 14 horas e 25 minutos. Agarro num jornal abandonado em cima do banco da frente e vejo a data.

4 de Abril de 2002.

Fico gélido perante esta visão. O jornal treme-me nas mãos e escapa-se por entre os dedos. A máquina fez-me regressar ao pior dia da minha vida. O dia dos horrores. O regresso ao passado para uma purga interior, uma catarse, um encontro com o diabo. A porta que dá acesso à cabina de condução abre-se lentamente, como se fosse em câmara lenta, como nos sonhos que não conseguimos controlar. Queremos fugir e não conseguimos, apetece-nos levantar e o corpo fica preso no lugar. O maquinista do comboio dirige-se a mim com ar grave e eu quero que ele volte para trás, não quero que fale comigo, não quero ouvir o que ele me vai dizer. A força que faço não surte efeito e da sua boca saem as palavras que trucidam, torcem, vandalizam-me ainda mais as entranhas,

– chocaram dois comboios em Miranda do Corvo e parece que há mortos.

e eu a fazer uma expressão de assombramento e a tentar esconder a dor, a tentar esconder que já sabia de antemão dos cinco mortos no choque frontal das automotoras, dos três colegas de profissão, do amigo com quem partilhava sorrisos e por quem sentia tamanha admiração. Já estou no meio dos destroços, e se o inferno existe, não deve ser muito diferente disto. Óleo misturado com sangue, ferro com roupas, linhas torcidas e vidros partidos. As lágrimas correm-me descontroladamente, o coração bate-me dentro da boca, levito em vez de caminhar. Num ápice estou no hospital de Coimbra, a pouco e pouco vou vendo alguns dos meus colegas de formação, pensos, ligaduras, olhares vazios. Alguns não irão aparecer. Recuo um dia e estamos num restaurante da cidade a jantar. Falamos de coisas banais, contas-me o teu sonho de ir ao Brasil com a tua mulher e as tuas filhas, deixar para trás a rotina do trabalho e do dia a dia. Depois do cinema caminhamos a pé pela cidade e desenhamos o futuro em palavras. No dia seguinte de manhã partilhas um beijo com a tua mulher, pelo telemóvel. Ao almoço, deixo-vos todos juntos e regresso mais cedo a casa. Um abandono empurrado pelo destino, o meu lugar nesse comboio tomado pelo diabo, a minha alma condenada a viver na eternidade da revolta e da dor. As tuas filhas condenadas a crescer sem o teu carinho. A tua mulher condenada a viver sem o teu abraço. Eu condenado a viver sem a tua amizade. Faz frio, encolho-me e enfio as mãos nos bolsos. Encontro um manípulo e sem pensar carrego no botão. O fumo, a trepidação, o meu corpo desfeito em moléculas, moléculas em átomos, um turbilhão de protões, electrões e neutrões até ao vazio, até à exaustão, até ao silêncio…

Sangue. E sorrisos. E lágrimas. E felicidade. Que mistura é esta de estares, que provocam tamanhos sentimentos no meio de uma sala de operações? Estou a filmar pessoas vestidas com batas verdes, toucas brancas, bisturis, luzes, tudo vejo através do ecrã da máquina digital que seguro na mão. Reparo na data no canto inferior direito.

4 de Abril de 2004.

Sorrio com a expectativa da vivência deste dia. Talvez o dia mais feliz da minha vida. A mão treme-me e passado pouco tempo entra no ecrã um pequeno bebé sujo e enrugado, ainda ligado ao seu bebedouro de vida pelo cordão umbilical. O bebé mais bonito que eu já vi, com um choro que ecoa pelo espaço, um choro que precede momentos de muita alegria que irá partilhar com a família e amigos. Saio cheio de emoções daquela sala e abraço o meu primo que me espera lá fora. E mais abraços. E mais beijos. E alegria. Sou pai. Para toda a vida. Olho-a através do vidro e vejo-a crescer lentamente. Vai somando aniversários, vai somando sorrisos atrás de sorrisos. Vai somando felicidade que não se limita a guardar, pelo contrário, distribui por todos os que a amam. É doce e amiga. É um anjo azul que me entra nas veias e adormece por longos períodos as revoltas e as injustiças. É a mulher da minha vida.

– pai, vou viver para outro país.

Os dois abraçados, encolhidos e esmagados pelo peso do destino. Os pratos da balança a competirem entre si, o da revolta e o da aceitação. Nenhum ganha. Perdemos nós os dois. Os soluços que de tanto estarem encravados se soltam como rugidos, saindo em liberdade, a dor que se expande e acalma. E ela, adulta e firme, no alto dos seus quase 6 anos, com a pata do seu urso de peluche a limpar-me os olhos,

– eu nunca te vou esquecer,

firme e hirta, maternal, a tomar conta de mim, os olhos azuis brilhantes e a tentarem dominar a situação,

– eu nunca te vou esquecer, pai!

Abraço-a como se fosse a última coisa que faço no mundo e sem querer aperto um botão de um manípulo que estava debaixo da almofada. O fumo, a trepidação, o meu corpo desfeito em moléculas, moléculas em átomos, um turbilhão de protões, electrões e neutrões até ao vazio, até à exaustão, até ao silêncio…

Estou parado em frente ao meu portátil. Olho para a data.

4 de Abril de 1010.

Não vejo máquina de tempo alguma. Nem manípulos. Apenas um ecrã com caracteres disformes e embaciados. Teclas molhadas que humedecem as pontas dos dedos com que escrevo. Hoje é dia de aniversários. Aniversários da morte e da vida. Como pode a mesma data ser tão antagónica? Como pode a mesma data ser comemorada ou sentida de forma tão diferente? E porque está este conto na secção linhas imaginárias, se a dor e a alegria se misturam na realidade?

Porque, filha, eu quero imaginar que para a semana quando estiveres a fazer o check in no aeroporto, estejas a dizer-me um até já bué rápido, que juntos consigamos transformar anos em meses, e condensar meses em semanas, e encurtar semanas em dias, para que o teu mágico abraço converta novamente a vida em cores vivas e alegres.

Porque, Nach, eu quero imaginar que amanhã quando entrar de serviço te vou ver de manhã com aquele sorriso peculiar e me vais perguntar,

– então Cipras, como é?

E eu vou-te responder, como habitualmente,

– aquela máquina, amigo, sempre aquela máquina!

As folhas do jornal são desfolhadas lentamente e o olhar percorre cada página com evidente curiosidade. As mãos são jovens, lisas e brancas, unhas arranjadas e pintadas com um verniz vermelho vivo, transpirando alegria e vivacidade. De quando em quando uma pausa, para um gole na meia de leite e uma passa no cigarro fino e comprido, cujo fumo se dissipa lentamente, misturado com os acordes da guitarra portuguesa que saem daquele rádio grande por cima da máquina do café. Mais meia dúzia de pessoas estão espalhadas pelas mesas, em conversas que versam indubitavelmente a guerra nas colónias e o resultado do último derby lisboeta. A jovem lança um olhar furtivo aos clientes e debruça-se novamente na página do jornal. De repente estanca o olhar num anúncio que a faz sorrir. É este, sussurra para consigo, sinto que é este! Do rádio, a guitarra portuguesa faz um compasso de espera e uma voz canta que foi por vontade de Deus, que eu vivo nesta ansiedade…

A jovem sai do café e dirige-se para o apartamento, ao fim da rua. A sua silhueta na vitrina do café acompanha-a como uma irmã gémea, alta e elegante, com o cabelo preso ao cimo da cabeça, toda ela respirando optimismo e agonia, sofrendo antecipadamente por aquilo a que adivinhava ser amor. Que estranha forma de vida, esta de sentir paixão por alguém que não se conhece.

As cartas chegavam e partiam duas vezes por semana. Chegavam com selo de Angola, onde ele estava a trabalhar. Felizmente tinha ficado livre da tropa e aproveitara para fazer vida na promissora colónia. Partiam cheias de esperança e juras de amor. De espera eterna, porque não faz mal sofrer com esta dor. As cartas iam-se amontoando na mesa-de-cabeceira, gastas de serem lidas inúmeras vezes, palavras borradas das lágrimas felizes que por vezes caiam dos seus olhos, brilhantes e ansiosos. Por vezes julgava-se morrer de tanto amor, desvanecer nos sonhos que de olhos abertos vivia e nas noites em que, acordada, construía. Quando a espera se tornava cada vez mais insuportável, a carta chegou. Vou para aí, dizia, vendo aqui tudo e vou para aí. Vamos ser felizes ao lado um do outro. Sentiu-se desvanecer e o ar faltar-lhe. Sentou-se e tentou recompor-se. Conseguiria sobreviver a tamanha sensação? Olhou para o calendário e começou a contar as semanas, dias intermináveis, horas sem fim, minutos infinitos…

A manhã estava fresca e a azáfama natural fazia-se sentir naquele cais, cada vez que chegava um paquete de Angola. A maioria esperava filhos, namorados e maridos, combatentes na guerra e que regressavam à metrópole. Choros de alegria mas também de sofrimento, quando caixas compridas e rectangulares eram descidas com pesar para o pontão. Fardas, miúdos, flores, ruídos, cheiros, tudo se misturava naquela manhã em que a vida recomeçava e os sonhos eram mais rápidos que o próprio pensamento. A jovem agarrava descontroladamente a mão da prima, dois anos mais velha, enviada pela família para tutorar o encontro. E é no meio de fardas verdes e sombrinhas abertas que ele desce a prancha, fato creme, chapéu branco, bigode fino, elegante, sorridente, respirando confiança, decidido. Um abraço. O primeiro beijo. Aquele olhar cúmplice e silencioso que tudo revela.

Os cinco dias seguintes foram passados na aldeia do litoral Oeste, de onde a jovem é natural. Tinha sido essa a exigência da família. Era o que faltava ele ir para o apartamento de Lisboa! Não senhor. Iria para casa dos pais dela, para se conhecerem e saberem das suas intenções. De dia passeavam por entre as vinhas e pomares, de mão dada e sempre com a sombra da prima por perto. Faziam piqueniques junto ao riacho que passava perto do moinho e ele contava-lhe histórias da colónia lá longe, onde a vida é diferente e fervilha a olhos vistos. Ela falava-lhe da sua infância e da ida para Lisboa, para tomar conta de uma tia, já falecida. Por lá tinha ficado, onde entretanto arranjara emprego como secretária numa empresa de importação. À noite, e depois do jantar, ela ficava à janela do quarto e ele na rua, conversando e dando um beijo furtivo antes de ir para a casa do tio dela, na rua acima, onde dormia. Ao final do quinto dia ele teve que partir. Iria ao Norte, de onde era natural, tratar de assuntos pessoais e regressaria o mais rápido que pudesse. Promete que me escreves, pediu ela. Não só escrevo, como te telefono todos os dias, afiançou ele. As lágrimas correm e testemunham a separação que se adivinha dolorosa. O comboio parte e com ele a felicidade do momento. Fica a esperança de uma espera rápida. Desfaz a curva e não resta agora mais que o barulho de um coração que bate descompassadamente, já com a saudade a entranhar-se na pele e a dissolver-se no sangue, como veneno. Um veneno bom.

As cartas vão chegando assiduamente. O carteiro sorri maliciosamente quando as entrega, lançando um piropo alegre e descontraído. À noite ela desloca-se ao café da aldeia, e à hora estipulada recebe o telefonema diário, onde as saudades são desfeitas momentaneamente, e se juntam novamente assim que o telefone é desligado. Sai do café perante os olhares dos varões que se questionam do porquê de ela ir arranjar homem tão longe, com tantos disponíveis e cheios de boas intenções ali tão perto. O amor não escolhe lugar nem distância, respondia ela às provocações, com ar tímido mas decidido.

Naquele dia não chegou a carta. Nem à noite o telefonema. Nem no dia seguinte. Nem no outro. O carteiro já não sorri quando é interpelado pela jovem. Os homens do café já não brincam com ela, quando tristemente recolhe a casa depois de mais uma espera pelo telefonema que não chegou. O mundo começou a ficar cada dia mais pesado, quase a desabar. Dia após dia, mês após mês, a esperança foi morrendo, a revolta foi crescendo. Da velha telefonia lá de casa surge a voz de Amália, o fado triste chorando pelas paredes do quarto, foi por vontade de Deus, que eu vivo nesta ansiedade…

______________________

As folhas do jornal são desfolhadas lentamente, o olhar percorre cada página distraidamente, lendo coisa nenhuma, apenas para passar o tempo. As mãos têm as rugas de uma vida, mãos que viveram décadas, que trabalharam e criaram duas filhas, três netos, mãos que levantaram os braços bem alto para o recomeço de uma vida que parecia perdida. Não podia dizer que não tinha sido feliz. O marido, já falecido, tinha sido mais que um amante, um verdadeiro amigo. As filhas criadas e os netos a entrar para a faculdade. A ela, agora, bastava-lhe que os dias fossem passando, com saúde e com algumas idas regulares ao Oeste, onde continua a ter família. Não, a vida não lhe fora madrasta, tinha construído algo e fora feliz. O olhar cruza-se com a televisão de plasma que está suspensa na parede do café. Como este tinha mudado ao longo do tempo! Um programa de homenagem à Diva do fado, pelos dez anos da sua morte passa no ecrã. Olhos fechados, mãos agarradas ao xaile preto, ganha vida ao cantar o destino, que estranha forma de vida, tem este meu coração: vive de forma perdida, quem lhe daria o condão, que estranha forma de vida!

Sai lentamente do café, com destino ao velho apartamento ao fim da rua. Ouve um chamamento. Primeiro baixinho, depois com mais intensidade,

– Graciete.

Não sabia de onde vinha a voz, não havia ninguém conhecido ali perto.

– Graciete. Sou eu!

Voltou-se e foi então que o viu. Fato cinzento e colete, o cabelo branco e as rugas do tempo que não viveram juntos na face. O olhar era o mesmo, com aquela intensidade e vitalidade de há cinquenta anos atrás. Lentamente abre a carteira e tira uma foto, a preto e branco, gasta pelo tempo, gasta pelas vezes em que a consumiu com o olhar. Uma foto que tinha viajado dentro de um envelope para Angola, tinha regressado e vivido junto ao coração a que pertencia. Queria explicar, mas não se explica uma vida num momento. Queria falar no poder que a família tinha exercido contra aquele casamento, mas não foi capaz. Queria falar do acidente que o atirou meses para a cama do hospital, mas não conseguiu. E quis falar de como a veio a encontrar mais tarde, casada, com filhas, e de como não teve coragem para se intrometer nessa vida estável. Também não o fez. Apenas mostrou a foto, olhos embaciados e voz embargada. Ela aproximou-se, pegou-lhe na mão por um momento. Olhou para a silhueta de ambos na vitrina do café. Uma silhueta a preto e branco, ela com o cabelo preso ao cimo da cabeça e ele de fato creme, chapéu branco, bigode fino, elegante, ambos envolvidos num abraço cúmplice. Voltou a olhar para ele e sorriu, largando a mão lentamente, voltando-se e regressando a casa sem olhar para trás, cantando baixinho em dueto com Amália, eu não te acompanho mais: pára, deixa de bater, se não sabes aonde vais, porque teimas em correr, eu não te acompanho mais…

Tempo e Espaço

Tempo e espaço. Tempo e espaço.

O narrador destas linhas tem o poder de se movimentar pelo tempo e pelo espaço, desmaterializando-se e voando pelos intervalos de barreiras até então intransponíveis, saltando por entre climas e épocas, nadando em águas extensas que cruzam rios e mares. Observa cada pixel de vida, de um mundo que lhe aparece através de uma caixa de televisão, não esses plasmas ou lcd’s modernos, mas antes uma caixa robusta e gigante, com poder e peso suficiente para albergar todas as vidas, todas as almas, todas as vontades e contra-vontades de quem vive ou apenas se arrasta nesta infinita bola azul. Quando algo lhe chama a atenção, mergulha por entre o ecrã e acompanha os risos e as lágrimas de seres que nem imaginam que estão a ser observados, com a curiosidade óbvia de quem acompanha um big brother on line.

O narrador não tem o poder de interferir, apenas de observar. É uma das limitações desta curiosa inutilidade, que faz com que perante injustiças não consiga alterar o rumo dos acontecimentos. E ainda bem, porque os conceitos de injustiça variam de ser para ser, de alma para alma, de pixel para pixel.

Tempo e espaço. Tempo e espaço.

Tempo, algures no recuo de dez anos em relação ao calendário actual. Espaço, cidade capital de um país outrora influente no panorama mundial, agora esquecido na cauda de uma Europa velha e sabuja. Uma rua com uma fileira de árvores de cada lado, vivendas de dois andares, alguns carros de alta cilindrada estacionados à porta. O narrador observa a criança em pé, ao lado do pai, ambos agasalhados da chuva miudinha que cai e do vento que sopra, naquele ocaso de Outono. A criança não terá mais que três anos. Agarra-se à perna do progenitor, sem perceber muito bem o que faz ali. O pai tem o telemóvel encostado ao ouvido, o ar é grave e a expressão de desânimo. O narrador passa por entre a chuva da televisão e funde-se com a chuva miúda que cai, nadando em círculos em redor das duas almas, tentando perceber a razão daquele estar. O olhar cai numa porta envidraçada, que separa a varanda do escritório, no primeiro andar de uma vivenda. Por detrás da porta de vidro, um homem alto e bem-parecido observa os dois invasores da sua calma vivência, que ousaram importunar o momento de leitura do seu jornal diário.

O narrador voa até ali e encosta o ouvido ao telemóvel, que também está ao ouvido daquele homem austero e que quase se confunde com os cortinados pesados do escritório, lenço ao pescoço, fato caro e óculos na ponta do nariz, olhando com um misto de medo e curiosidade, lá do alto do primeiro andar. “Ele está aqui, tem a oportunidade de o conhecer, de o abraçar”, as palavras saem calmas e têm o dom de alterar a respiração do homem que as escuta. Uma mulher entra nesse momento no escritório, rosto fechado, autoritária, decidida. “Não”, rosna ela, puxando-o pelo braço…

Tempo e espaço. Tempo e espaço.

O narrador atravessa a porta de vidro e sai novamente para a rua, faz dois círculos em redor das duas almas que continuam em pé, ao frio e à chuva, e desaparece nos intervalos do tempo, recuando vários anos e deparando-se com outra cena que lhe chama a atenção. O homem do escritório discute com alguém que parece ser a sua filha. Dedo em riste, olhos de fogo, o aviso eterno: “nunca mais! Nem tu nem nada que tenha a ver contigo. Nunca mais!”. Como se o canal tivesse mudado, o narrador encontra-se agora a assistir ao parto daquela mulher. As dores transformam-se num rapaz de quatro quilos, que cresce ali à frente, transformando segundos em meses, choros em gargalhadas, gatinhar em andar, até se encontrar novamente em pé, ao lado do pai, ambos agasalhados da chuva miudinha que cai e do vento que sopra, naquele ocaso de Outono.

Ele está aqui, tem a oportunidade de o conhecer, de o abraçar. É o seu neto, caramba!

O narrador já se encontra novamente no escritório, escondido, se preciso fosse, atrás dos altos e pesados cortinados. A mulher continua a agarrar o braço do homem dos óculos na ponta do nariz. Um “não, não” ecoa pelo escritório e rodopia dentro da cabeça do homem. O narrador posiciona-se agora ao lado dos dois vultos, naquela rua molhada e sentindo, também, o vento frio na face. A imagem por detrás da porta envidraçada vai-se afastando, devagar, recuando novamente para o sofá onde repousa, aberto, o jornal do dia. Agora, através do telemóvel do progenitor apenas se escuta o ruidoso barulho do silêncio. Por mais uns momentos ficam parados, ambos a olhar uma varanda vazia, que dá para um escritório, também ele com uma alma vazia. O progenitor pega no filho ao colo, abraça-o e afastam-se lentamente sem olhar para trás.

Tempo e espaço. Tempo e espaço.

Tempo, calendário actual. Espaço, cidade capital de um país outrora influente no panorama mundial, agora esquecido na cauda de uma Europa velha e sabuja. O narrador fixa a imagem da televisão num adolescente que tenta aprender a tocar violino, irritado por ter tantas aulas teóricas e tão pouca prática. Os pais adoram-no e ele orgulha-se dos sorrisos que abre nos corações de ambos. O narrador, com vários sopros, muda várias vezes de canal, até a imagem se fixar num escritório de um primeiro andar, com cortinados pesados e onde um homem lê um jornal vazio, cada folha depois de outra, alimentando uma alma despojada, um coração despido, um querer esvaziado, uma mente desfolhada, como as árvores daquela rua. Um homem que num segundo de decisão ficou preso para sempre naquele espaço. Um homem que não escutou o seu coração e ficou a saber que o tempo não volta atrás.

O narrador, lentamente, desliga a televisão.

O Maquinista

Jacques Lavoir admira a plateia, composta por muitos quadros da empresa e uns quantos colegas de condução. Todos o olhavam com alguma ansiedade enquanto desdobrava uma amarrotada folha A4 e se preparava para desvendar o mistério.

Sabia que estava ali por mérito próprio. Mas também sabia que nestas coisas o mérito tem que ter a companhia da sorte. Maquinista dos caminhos-de-ferro franceses há 20 anos, nunca tivera um acidente, nunca chegara atrasado ao destino e tinha uma folha de cadastro limpa e pura como uma virgem. Sempre impecavelmente vestido, dotado de bom trato, atencioso e educado, era quase um cartão-de-visita para quem viaja nos TGV’s da SNCF. E hoje, ali estava ele para ser homenageado pelas duas dezenas de anos de uma carreira bem sucedida e para um momento de merecida glória. Tanto os colegas como os superiores hierárquicos lhe perguntaram várias vezes, ao longo dos anos, qual o sucesso de tamanha competência, como conseguira ele através do tempo não coleccionar um único minuto de atraso às chegadas dos comboios ao destino.

Mas Lavoir sempre se escusara a revelar o seu segredo, justificando sempre para mais tarde uma explicação.

Que chegara hoje, tinha-o anunciado antecipadamente. Quando for homenageado, pelos 20 anos de serviço, eu partilho convosco, dissera ele a alguns colegas que se encarregaram de espalhar a notícia. Não admira que a sala esteja cheia, a respiração quase suspensa e os olhares presos naquela folha de papel que está a ser desdobrada nas mãos de Lavoir. Depois dos agradecimentos circunstanciais, finalmente estica a folha e vira-a para os olhares curiosos. Podem observar-se dois círculos pintados – o de cima vermelho e o de baixo verde. E apenas acrescenta,

– Colegas e amigos, aqui está a ajuda preciosa que tenho tido ao longo dos anos. Quando tenho algum tipo de dificuldade ou alguma dúvida, recorro a este auxiliar. Se o sinal está vermelho, venho aqui e sei que tenho que parar. Se estiver verde, posso andar!

Há quem diga que foi naquele momento que Lavoir passou a barreira que o separava do comum dos colegas. Não se tornou desleixado nem menos interessado pelo trabalho. Pelo contrário, o caminho-de-ferro e os comboios sempre foram e serão a sua paixão. Mas apoderou-se dele uma visão mais desprendida e alegre dessa profissão tão anti-social. E sem nunca colocar – nem uma única vez, nem por um único segundo – em risco a segurança da circulação e o bem-estar dos passageiros, não se coibiu de ir acrescentando outro tipo de parágrafos ao seu currículo profissional.

Aquando da inauguração do Túnel da Mancha, a SNCF preparou uma viagem de consagração para os media e vários membros do governo. Lavoir tinha sido o escolhido para conduzir o Eurostar, que partia da Gare du Nord pouco depois da hora de almoço, com destino a Waterloo Station, em Londres. Com o tempo despendido a preparar o material e a fazer os ensaios, Lavoir nem tivera tempo de comer o que quer que fosse. Depois de uma sandes e um sumo digeridos à pressa no bar da estação e eis que se aproxima a hora da partida do comboio. Acerca-se da frente da composição, onde uma pequena multidão tira fotografias e faz comentários sobre o tema. Lavoir pára e observa o que se está a passar, divertido com as observações de quem pouco sabe sobre o meio ferroviário. A maioria dos passageiros já se encontra a bordo e alguém exclama que está na hora da partida, mas nem sinal do maquinista. Lavoir olha para o lado e para o outro, encolhe os ombros e exclama,

– Se não há maquinista, levo eu isto. Há uma primeira vez para tudo!

Perante os olhares incrédulos dos presentes, Lavoir salta para a cabine de condução e passados alguns momentos o comboio coloca-se em movimento. Não andou muito, pois o responsável pela sinalização, avisado imediatamente da situação, fechou o sinal forçando o comboio a imobilizar-se. E quem é que demovia da cabeça de alguém que ele era mesmo o maquinista do comboio?

A gota de água surgiu no dia em que Lavoir, depois de passar revista ao comboio, encontrou uma bengala de auxílio a invisuais. Branca e desdobrável, foi recolhida e seria entregue no final do turno à secção de perdidos e achados da empresa. Na carruagem seguinte um par de óculos escuros repousava esquecido em cima de um assento. Também este objecto seria entregue no local respectivo. Mas enquanto caminhava em direcção à cabine de condução, pensou em como a conjugação daqueles dois objectos o puxavam para uma derradeira partida, mais forte que ele, superior à sua vontade, as suas mãos agindo sem que houvesse autorização para tal.

Um individuo com óculos escuros e uma bengala branca avança devagar e com precaução por entre os viajantes da gare apinhada. Todos lhe dão passagem e entra na carruagem da frente. Os passageiros ficam boquiabertos quando este se encaminha para a porta onde a inscrição proibida a entrada a pessoal não autorizado está visível, segurando a bengala que ziguezagueia entre os assentos do corredor. Os olhares dos mais próximos ficam esbugalhados quando o vêem sentar-se na cadeira de condução e iniciar os preparativos para a partida do comboio. Uma buzina soa por alguns momentos. Com um solavanco a composição move-se, ganhando velocidade…

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Conheci Jacques Lavoir num encontro da UIC, a União Internacional dos Caminhos de Ferro, em Paris. É quase mais conhecido do que o presidente da empresa. Falei-lhe dessa história e se era verdade. Que as histórias são isto, narrativas e contos, elos de veracidade e de fantasia, respondeu-me ele. E, maliciosamente, disse-me para não acreditar em tudo o que ouvia. Insisti, queria saber como acabara a viagem,

– Curta, muito curta. Cinquenta metros apenas. Alguém puxou o sinal de alarme. E também alguém decidiu violentar a minha folha de cadastro. Doze dias de suspensão,

retorquiu-me ele com um sorriso nos lábios. Quis saber se isso não o preocupava, manchar assim um passado tão brilhante, deitar tudo a perder, e agora ter processos disciplinares, ser incomodado?

– Mon ami, bien sûr ça me dérange. Mais je m’amuse. Je m’amuse…

Tcham canta, m’bem
Traze boses
Um aroma daquel país
Cabo Verde terra querida
Qu’nos tud krer na coraçon

A voz melancólica de Cesária Évora desperta em mim um sentimento de embriaguez, penetrando no corpo e embalando-me nos ritmos calmos e serenos dessas mornas entoadas pela diva dos pés descalços. Tristezas, mágoas e lamentos choram através de quatro colunas de tripé, dentro daquele jango grande e arejado, talvez a única discoteca aberta na ilha de São Vicente. O ambiente é calmo e descontraído, algumas cervejas rolam pelas mãos de uns jovens, enquanto a maioria dos casais gingam os corpos ao ritmo das mornas e coladeras, com uma desenvoltura quase erótica, pares fundidos num só.

– Bu crê batja cu mi?

Alice ria-se, adivinhando de antemão que estava perante um ignóbil dançarino. Fê-lo para me provocar, com a cumplicidade do irmão que mostrava um sorriso franco e afectuoso. Gostei imediatamente deles. Ainda tentei uns passos de dança, mas a anca ficava presa e os pés não estavam talhados para esse tipo de arte. O melhor é bebermos todos uma cerveja, convidei eu.

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O edifício da estação dos correios era-me familiar, fazendo lembrar as antigas estações em Portugal. Gabinetes fechados, com telefones de disco, guichés de atendimento em madeira com um vidro cortado em baixo, posters grandes pendurados nas paredes, com paisagens actualizadas do arquipélago. Mindelo 1988, podia ler-se num deles. Posicionei-me no fim da fila, olhando distraidamente os postais que tinha escrito para enviar, quando uma voz me sobressaltou,

– O que é que você está aí a fazer? Você é branco, você passa à frente dessa gente toda!

Olhei perplexo para ele. Um velho preto, com barbas brancas agarrava-me pela t-shirt e puxava-me para a frente das outras pessoas. Envergonhado tentei resistir, explicando que não, que aguardava a minha vez, que não tinha que passar à frente de ninguém, ansiando ficar invisível, enfiar-me num buraco, desaparecer. E ele a insistir,

– Aqui os brancos passam à frente, não tem nada que ficar no fim da fila. Venha comigo, vá!

Enquanto era arrastado para o guiché olhei para os restantes clientes. Ninguém se pareceu importar com a situação. Uns olhares vazios cruzaram-se com o meu, nem uma palavra, nada! Isso deixou-me ainda mais envergonhado. Os resquícios coloniais teimam em desaparecer. Desapareci eu. Paguei e saí dali a correr.

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Descíamos os três calmamente o caminho que nos levava, a mim ao porto, a eles a casa. Tinham o hábito de uma vez por semana irem à discoteca, ouvir música e conviver com amigos. Alice, magra e esguia, o irmão mais alto e entroncado. Ainda era cedo, pouco passava da meia-noite e quem tinha que ir embora era eu. Partia na madrugada seguinte, dali a umas horas. Eles podiam ter ficado mais tempo. Que não, respondera-me Alice. Não gostava de chegar tarde a casa, a cunhada tinha ficado a fazer de babby sitter e não queria abusar da boa vontade dela. Olhei-a mais atentamente. Parecia nem ter sequer 16 anos, como podia já ser mãe?

– Tenho dois. Um menino e uma menina. Os meus amores!

Fiquei pasmado a olhar para ela, que se ria em gargalhadas sonoras e agudas, saboreando a minha estupefacção. E confidenciou-me,

– Vou contar-te a lenda do Mindelo: conheces aquela estátua perto do porto? Um monumento com uma águia em cima? Pois reza a lenda que essa águia levantará voo no dia em que passar perto dela a primeira catorzinha virgem!

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A nossa vontade de comer marisco era avassaladora. O grupo de marinheiros que me acompanhava já há alguns dias tinha prometido a si próprio uma degustação de lagosta cabo verdeana. Aquele calor do meio-dia, seco e asfixiante estava mesmo a pedir a companhia de umas cervejas ou de uma garrafa de vinho branco, para escoltar a mariscada. Entrei no restaurante para saber se havia mesa para seis. Os meus camaradas ficaram na esplanada e eu dirigi-me ao funcionário que vinha ao meu encontro, em direcção à porta. Bem apresentado, camisa e casaco branco, com ar profissional. Cumprimentei-o e perguntei se havia mesa para seis pessoas, para o almoço. Olhou-me com um ar sério, testa enrugada, rosto fechado e olhos surpresos. Depois, em poucos momentos, os lábios ganharam vida, primeiro num sorriso ténue, e logo depois numas gargalhadas estridentes,

– Você tem mesmo piada, muito engraçado. Mas sabe, eu sou o ministro do turismo e também passei por aqui para marcar mesa para o almoço!

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Dou dois beijos a Alice e cumprimento o irmão. Despeço-me de ambos desejando felicidades. Agradeço o bocadinho de Cabo Verde que me deixaram beber com eles. Porque só deste modo faz sentido viajar e conhecer. E caminho em direcção ao navio, respirando este ar seco, esta ilha de histórias, este Mindelo de saudades. Uma brisa leve sopra agora e assusto-me repentinamente com uma sombra que passa sob a minha cabeça. Volto-me e detenho-me por momentos a contemplar um monumento alto com uma águia em cima. Pisca-me o olho. Ou pelo menos é isso que eu penso ver. Decerto o cansaço a pregar-me uma partida. Sorrio e regresso ao meu caminho, mãos nos bolsos, o mar diante de mim e o coração cheio de cumplicidades e nostalgias. Ao longe uma voz lamuriosa faz-me companhia…

Tcham canta, m’bem
Traze boses
Um aroma daquel país
Cabo Verde terra querida
Qu’nos tud krer na coraçon

Sonho de Natal

Ainda se sente o cheiro a novo, quando se abre a porta de casa. Embora ainda um pouco despida, parece-me acolhedora e simpática. Sinto-me bem aqui. Ligo o rádio (hoje só se ouve o Jingle Bell e a Noite de Paz) e tiro do frigorífico o meu jantar de Natal. Um pedaço de carne estufada com puré de batata, que vai fazer as vezes de bacalhau com couves, e uma sopa de espinafres, que me irá aquecer o estômago e alguns cantos escondidos nas prateleiras do meu cérebro. A garrafa de vinho não substitui nada, é original e é um tinto de 14 graus da Estremadura, feito com castas de Aragonês e Touriga Nacional, e vai servir de apoio a este magnífico banquete. Brindo várias vezes a pessoas que me surgem na mente. Brindo à vida de copo cheio; recordo a fome e a guerra com o copo vazio. E continuo a beber. A garrafa está quase no fim. É melhor ir para a cama dormir e esquecer, que amanhã é novo dia. E cambaleando, ainda consigo lá chegar…

Dentes lavados, pijama vestido. Na mesa-de-cabeceira um livro que não sabia que tinha. Leio o título: Conto de Natal, de Charles Dickens. Como veio isto aqui parar? O livro é mais aterrador que o filme. Lembro-me de o ter visto algumas vezes quando era miúdo. Os fantasmas e o Scrooge misturam-se na minha cabeça com um vapor a vinho tinto. O livro escorrega. A cabeça pende. O corpo adormece…

Ding dong!

Acordo sobressaltado! Olho para o relógio, é meia noite.

Ding dong!

Sim, estão a tocar-me à campainha. Saio da cama e tropeço no Conto de Natal, de Dickens. Um calafrio percorre-me a coluna enquanto atravesso o corredor. Será a minha vez de provar a viagem arrepiante com os três espíritos natalícios? Serão os erros do meu passado tão graves que me tenham escolhido de entre milhões para iniciar a minha catarse? Dirijo-me para a porta como o Scrooge do filme, esperando abri-la e ver…

… um velho gordo vestido de vermelho?!

Enquanto abro a porta penso rapidamente no que está a acontecer. Será uma partida da minha mente? O vinho tinto a deturpar-me a visão? Já não penso mais porque um olhar cansado cruza-se com o meu, um gesto de cumplicidade acalma-me, uma voz grossa de milhares de anos pede-me um pouco de repouso.

Sentados à mesa da cozinha, observo-o mais atentamente. É um velho sem idade, com um olhar cristalino por detrás das lentes redondas, que traga um copo de vinho saído do que restava da garrafa. Eu levanto-me e abro outra  de tinto. Tenho um presságio de  que a noite irá ser longa e interessante. Encho um copo para mim também. Percebo que a fadiga se apoderou dele, que mesmo os velhos sem idade se cansam, que mesmo os olhares cristalinos por vezes se turvam. E falamos os dois sobre a felicidade e a alegria do Natal, do conceito da família, do fazer bem, dos desejos, das prendas, dos sorrisos abertos. E de como num ápice tudo volta à normalidade da indiferença, da inveja, das guerras e fomes, misérias e corrupções, interesses e mesquinhices… Diz-me que este dia em que percorre milhares e milhares de quilómetros por entre chaminés, meias e árvores de Natal, compensam todos os restantes em que o Homem não quer Natal. Nota-se que está exausto. Os olhos começam a fechar. Pergunta-me se pode descansar um pouco. Que sim, que é uma honra.

Enquanto fumo um cigarro olho para a roupa que ficou espalhada pelo corredor. Botas pretas, casaco e calças vermelhas, um gorro com uma bola na ponta, uma barba branca e um bigode da mesma cor, um par de óculos. Do meu quarto escuto uma respiração forte, intercalada com alguns roncos. Sorrio sozinho. Tenho o Pai Natal a dormir na minha cama!

Um tinir de um guizo chama-me a atenção. Abro a porta do pátio e vejo uma rena com o nariz vermelho a olhar para mim. Rudolfo, de seu nome, tem atrás de si um gigantesco trenó carregado de presentes, embrulhos de todas as cores. Mais renas estão espalhadas pelo meu pátio. Da porta observo os movimentos delas. Do interior vejo a roupa espalhada pelo chão. Rudolfo pisca-me o olho. E numa fracção de segundo compreendo tudo!

Corro pelo corredor, visto as calças vermelhas, aperto o casaco com o cinto preto, entro no trenó enquanto coloco a barba e o bigode, e já no ar e a uma velocidade estonteante, enfio finalmente um gorro vermelho e rio a bandeiras despregadas enquanto as renas me puxam por baixo de um céu limpo e cintilante. As casas deixaram de ter forma, Cascais dissolve-se com a Damaia, bairros ricos com bairros pobres, uma forma única, um sorriso colectivo, uma alegria generalizada.

Contagiante!

As renas fazem acrobacias, os presentes distribuídos são automaticamente repostos por outros, as estrelas passam e tocam-me. Tão perto delas, reconheço-as. Têm nome! Chamam-se António, ou Amélia, ou Armando, ou Durilde, ou Luís ou Zé João… São milhões que vivem no céu e que já viveram na terra. São felizes. Olho para trás e já não tenho um trenó. Na atmosfera desenham-se carris de fumo, conduzo um comboio sem fim, cheio de crianças felizes, sorrisos e gargalhadas, sem cor, sem credo, sem distinção social. Crianças, apenas crianças, em plenas funções para as quais nasceram. Uma delas chama-me a atenção. O único pormenor que a diferencia das restantes é um pequeno sinal na face direita. Dirige-se a mim com uns olhos azuis a transbordarem doçura e dá-me um beijo. Pergunta-me se lhe dou gomas e eu aceno com a cabeça, tentando disfarçar para não ser reconhecido. Segreda-me “um amo-te muito pai” e dá meia volta para continuar a correr pelas carruagens da felicidade, onde os presentes, as gomas e os chocolates imperam. Tento recordar-me do que me disse. Teria sido descoberto? Com o ruído das outras crianças não devo ter escutado o nome completo. “Pai Natal”, deve ter dito ela!

Já estou novamente num trenó, que lentamente vai perdendo velocidade. Avisto o pátio da minha casa, o corpo está entorpecido, o cansaço impera, os olhos teimam em fechar. Já não me recordo do trenó deslizar suavemente e parar junto à porta da cozinha. O sono é mais forte. Durmo!

Ding dong!

Acordo sobressaltado! Olho para o relógio, é meia-noite.

Ding dong!

Sim, estão a tocar-me à campainha. Saio da cama e tropeço no livro A Cinderela da minha filha. Dirijo-me sobressaltado para a porta, com um misto de desilusão misturado com os ainda vapores do vinho tinto. Afinal não passara tudo de um sonho bonito. O meu vizinho sorri-me quando abro a porta. Oferece-me umas fatias de bolo-rei e uma garrafa de Porto. Desfaço-me em agradecimentos, desejoso de poder voltar para a minha cama e curtir a ressaca da desilusão de uma noite mágica que, afinal não aconteceu. Deixo o bolo-rei na bancada da cozinha e decido beber um copo de Porto. Abro o armário e não encontro copos. Só tenho dois, utilizei um ao jantar, o outro tem que estar algures. Na máquina de lavar também não está. Sento-me à mesa e pouso a garrafa, rendido. O meu olhar perdido colide com dois copos, ainda vermelhos de tinto. Dois copos?! Mas…

Levanto-me repentinamente, num salto estou à porta que dá para o pátio ainda a tempo de avistar um trenó enorme puxado por renas, deixando para trás um rasto luminoso de alegria! Fora verdade! E rio, rio até não poder mais, até as lágrimas da felicidade correrem pelo meu rosto. Porque tivera a melhor prenda de Natal, num dos piores Natais até então passados: por uma noite, eu fora o PAI NATAL!

E sei também, agora, porque fui eu o contemplado: porque desde pequeno, adolescente ou adulto, eu sempre acreditei nele. Aquele que avisto lá ao longe, cada vez mais distante, mas ainda audível com a sua voz grossa de milhares de anos…

OH, OH, OH, FELIZ NATAL!