O Alfa das Sete

O “Vila Faia”

22/11/2009 · 9 Comentários

Cortaaaaa- Dokumente!

A ordem rude e autoritária é dada por um oficial alemão. Alto, cabelo alourado cortado rente, mãos atrás das costas e olhar frio e cortante. No braço esquerdo é visível uma cruz suástica e o padre que desembarca do comboio parece surpreendido e atordoado com esta recepção.

- Dokumente!

A ordem é repetida, desta vez a roçar a violência verbal. O enorme cão ao lado do oficial começa a ladrar e alguns passageiros baixam a cabeça ao passar pelos intervenientes nesta acção. Debaixo das carruagens do comboio sai um fumo proveniente do aquecimento, o que dá um ar mais assustador à cena. A estação é escura e lúgubre, à imagem destes anos do início da década de quarenta.

Esta estação ferroviária poderia ser qualquer uma na Alemanha de Hitler, mas não é, porque… é a de Mafra, na linha do Oeste, em Portugal!

Ninguém sabe o que aconteceu ao padre. Para saber o resto da história temos que ver o filme The Garden of Redemption, uma produção americana que foi parcialmente filmada em Portugal, cinquenta e cinco anos depois de ter terminado a Segunda Grande Guerra. É um privilégio participar neste tipo de acções e perceber a realidade do que está por detrás das filmagens, fazer parte oculta do filme, da novela, do anúncio que está a ser filmado, olhar para a televisão e pensar que para filmar uma cena de dois minutos foram necessárias muitas horas de “acção-corta-vamos repetir”.

Por vezes algumas indicações são dadas ao realizador, pormenores que passam despercebidos a quem desconhece o meio ferroviário. No filme Capitães de Abril, de Maria de Medeiros, o comboio que leva Salgueiro Maia para Santarém partia de Santa Apolónia com o sinal de saída visível em branco, o que significa manobras, para simplificar as repetições da cena. Puxa à frente, recua, puxa à frente, recua, vezes infinitas. A minha indicação foi a de abrir o sinal em verde, pois seria isso o que mais se adequaria à realidade, o que foi prontamente aceite pelo realizador. Mas o mini protagonismo é imediatamente deitado por terra quando toda a gente faz uma pausa de meia hora, às três da manhã, para um briefing e eu fico esquecido na cabine de condução. Lá se foi a minha oportunidade de conviver com estrelas cintilantes da lusa Hollywood!

A linha do Oeste é pródiga em filmagens. Talvez motivadas pelo pouco tráfego ferroviário, pelas estações quase desertas e que vão mantendo a sua traça original, algumas produções têm sido rodadas nessa linha. Além de Mafra, recordo-me de ter participado em dois anúncios em Dois Portos: um para a TMN, onde vários telemóveis gigantes fugiam não me lembro de quem, outro para o BES, com a Lúcia Moniz pendurada na janela da carruagem a despedir-se do namorado. A estação do Bombarral também foi transformada em Figueira da Foz, em 1995, no filme Sinais de Fogo, baseado no romance de Jorge de Sena e realizado por Luís Filipe Rocha. Poucos anos depois, no ano 2000, a mesma estação serviria também para a rodagem da série televisiva Alves dos Reis, de Francisco Moita Flores.

Mas de todas as filmagens, a que mais me recordo foi a da telenovela Vila Faia, numa acção rodada no Outeiro. A cena era simples: alguém com muita idade esperava na estação outro alguém muito mais novo (um neto julgo eu, não memorizei as ligações familiares). A cena era filmada sem cortes, em contínuo. A minha função era trazer o comboio até à estação, com a locomotiva e respectivas carruagens a efectuar paragem na gare, de onde desembarcaria um jovem a quem o avô iria envolver num longo e sentido abraço. No entanto esse abraço resultaria numa enorme comoção, em lágrimas e num quase fatal ataque de coração, com uma dor lancinante a apoderar-se do idoso que viria a desmaiar no chão frio da plataforma de serviço. Entretanto já eu tinha saltado da máquina e acompanhava a cena num dos monitores próprios para o efeito. E o que vi a seguir gelou-me completamente…

Um factor novato que desempenhava funções de chefe de estação no Outeiro entra de rompante na cena, com um copo com água na mão e ajoelha-se ao lado do idoso, gritando,

- um médico, não há aqui nenhum médico? Peçam ajuda, porra, está a dar uma coisa ao homem!

Claro que a palavra mágica ouviu-se de imediato, proferida quase do mesmo modo que o oficial alemão. Não, não foi dokumente, foi corta, mais propriamente,

- COOOOOOOOOORTAAAAAA! MAS QUE MERDA É ESTA?! VAMOS TER QUE REPETIR TUDO!

Entre gargalhadas de uns e embaraços de outros, toda a gente regressou aos seus postos. A cena foi repetida e desta vez sem complicações. O novato factor desapareceu de cena até as filmagens terminarem, mas ao ter entrado na acção estava, sem se aperceber, a rebaptizar-se, como se se tivesse despido do seu nome verdadeiro e, no meio ferroviário, passasse a ser conhecido por outra designação: o “Vila Faia”. O único ferroviário da rede nacional que se preparava para despejar um copo com água na cara do Nicolau Breyner!

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Era uma vez…

14/11/2009 · 9 Comentários

Rainha Tia_0002Era uma vez…

Era uma vez, porque todas as histórias de fadas e príncipes começam assim. Mas onde existem fadas e príncipes, coabitam obrigatoriamente bruxas, fadas más, duendes e dragões. Esta é a história de uma rainha má, simpática, mas traiçoeira, sorridente, mas a destilar veneno, e culta, mas sem usar a cultura.

Era uma vez…

A rainha má não tem nome. Chamemos-lhe, então, e para não usar tantas vezes este péssimo adjectivo, Rainha Tia. Nome simples e singelo, como ela gosta de ser e dar-se a mostrar.

Rainha Tia vive numa ilha conquistada, por ela, a D. Filipe, uma ilha sem nome e onde é a lei, uma ilha onde o absolutismo impera e quem não está com a rainha, está contra ela. Vamos baptizar também a ilha, e chamemos-lhe Isla Rica. Não por ser um lugar onde abundam várias riquezas, como petróleo ou diamantes, mas sim pela imensa cultura e boa educação com que os seus habitantes se tratam. Rainha Tia não tolera má educação, palavras erradas, má dicção. Governa com punho de ferro, impondo normas e leis que deverão ser rigorosamente seguidas pela população. Períodos de leitura obrigatória, oralidade, escrita, tudo na sua presença e impondo castigos severos a quem não consegue atingir níveis por ela definidos. Tudo parece fluir normalmente e com aparente felicidade em Isla Rica, e Rainha Tia adormece tranquila e feliz, com a lembrança da contribuição pessoal para o desenvolvimento da cultura e dos bons costumes. Depois de engolir tranquilamente o seu gin tónico e de ler mais uma estrofe de Florbela Espanca, Rainha Tia aproxima-se do seu espelho e pergunta, como sempre:

- Espelho, espelho meu, existe alguém mais sábio, culto e interessante do que eu?

- Não, Rainha minha, vossa majestade é a pessoa mais sábia, culta e interessante do reino, e nem o Conde Alberto João Jardim e o Príncipe Valentim Loureiro lhe chegam aos calcanhares em tamanha delicadeza em palavras e actos.

Rainha Tia passava os dias absorvida na sua cruzada contra os infiéis ignóbeis e ignorantes, que nem sequer sabiam sinónimos simples e perfeitamente ao alcance da população:

- Não me diga que não sabe que oscular significa beijar? Está a ver deste meu lado esquerdo? Imagine um casal a beijar-se. Agora veja ao meu lado direito. Está a ver? O mesmo casal a oscular-se. Então diga-me: imagina viver  feliz o resto dos seus dias, sem saber este sinónimo? Pois é, é por isso que vivo cada dia com satisfação, porque contribuo para a grandeza e seriedade da enorme instituição que é esta ilha!

Um dia, Rainha Tia decidiu organizar uma festa. Este evento deveria ser comemorado com pompa e circunstancia. Matar-se-iam cinquenta porcos, cada um de modo diferente, para se poder sentir os cheiros, os sons, para que tudo fosse festa do princípio ao fim. Aproveitou o regresso dos valorosos guerreiros do reino, que chegavam após mais uma batalha, sedentos de vontade de sexo, para que tivessem relações sexuais à bruta. O importante era apenas preservar o acto sexual como um rito de passagem. No dia da festa fizeram-se excisões e bateram-se com varas nos pénis dos rapazes, para que se fizessem homens. As mulheres menstruadas foram obrigadas a ficar em casa, por estarem impuras e não poderem olhar para os homens.

A festa correu lindamente e Rainha Tia sorria sibilante pelo sucesso alcançado no reino. Tudo corria na perfeição. À noite, depois de beber mais um gin e ler outra estrofe de poesia, perguntou ao espelho,

- Espelho, espelho meu, existe alguém mais sábio, culto e interessante do que eu?

- Na verdade, minha rainha, existe!

Rainha Tia ficou petrificada. Os céus abriram-se para os relâmpagos caírem e os mares secaram para que o fogo lavrasse em seu lugar. A terra tremeu e o tempo parou!

- Atreves-te? Tu estás ciente do que me estás a dizer? Espelho canalha, parto-te todo, desfaço-te em mil pedaços…

- Sim, minha rainha, é precisamente por isso. Apenas tenho tido compaixão por vossa alteza. Depois de partir os dois anteriores espelhos, vossa alteza está há catorze anos sem, digamos sem a querer ofender… Bom, vossa alteza sabe o que acontece à vida sexual das pessoas quando partem espelhos, não é! Apenas a tenho estado a ajudar, pois esse período está quase a terminar. Por isso tenho-lhe mentido. Na verdade existem muitas pessoas mais sábias, cultas e interessantes que vossa alteza. E também é verdade que isso não é importante, pois o que é relevante é aceitar as diferenças, ser compreensivo, ajudar e ser ajudado, se tolerante e descer dos pedestais de onde nos encontramos, para olharmos ao mesmo nível dos outros. Sempre com o respeito em relação ao próximo. E sempre com a certeza de que são as suas diferenças que nos fazem crescer. Aprender com os demais, e ao ensinar, aprender também. Com os mais ou menos interessantes. Com os que estão ou com os que passam. Com os que participam ou com os que apenas observam. Com os brancos e pretos, homossexuais e heterossexuais, altos ou baixos, carecas ou com cabelo, com os que nasceram nos anos 50 ou os que nasceram nos anos 80, mulheres inférteis ou mulheres grávidas…

- Calaaaaaaaaa-te já!…

A Isla Rica transpira um silêncio, agora, aterrador. Por entre mil pedaços de vidro jaz uma pobre rainha, afinal prisioneira dos seus medos, que soluça compulsivamente. As lágrimas são por saber que, afinal, é feita de carne e osso e que os seus poderes eram alimentados por um ego enorme e um orgulho tenaz. E o sorriso perdeu-se eternamente, porque num acto irreflectido de loucura, cavou a sepultura de mais sete anos de abstinência sexual!

Era uma vez…

Era uma vez, porque todas as histórias de fadas e príncipes começam assim. E em todas, eles vivem felizes para sempre.

Excepto as bruxas, os duendes e os dragões. E também as rainhas más!

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Sete dias em Maputo

16/10/2009 · 19 Comentários

Mulher0001- Como te chamas?

Olhei para ela com curiosidade. Alta, um olhar profundo, pele negra e sorriso aberto. Fiquei parado porque a noite estava a ser longa e o álcool começava a fazer efeito na minha cabeça.

- Não importa o nome – atalhou ela - tu estás no navio que chegou hoje de manhã ao porto, não é? Já tinha reparado em ti. Vais estar aqui quanto tempo?

Respondi que sim, que tinha chegado pela manhã e ficaria sete dias.

- Pois nos próximos sete dias vais ser meu!

A visão começava a turvar e o corpo a cambalear. Já não tinha sede nem vontade de continuar ali. Acenei com a cabeça. Saímos e chamou um táxi. E, nos sete dias que se seguiram… fui dela!

_______________________

Maputo move-se a um ritmo calmo e compassado. Um primeiro olhar sobre a cidade deixa antever a colagem europeia que sofreu há muitos anos. Os veículos circulam pela esquerda, a estátua de Maria da Fonte está de sentinela em frente à estação ferroviária e o fabuloso pastel de nata comido no Café Lisboa não ficou solteiro, tendo engolido imediatamente o segundo. No Clube Naval algumas elites jogam rammy. Estamos em finais dos anos oitenta e nesta outrora Lourenço Marques não se vislumbram grandes heranças visíveis do tempo da guerra, ao contrário de Luanda, por exemplo.

No mercado troco t-shirts por arte africana. Umas pinturas e umas estatuetas, transportadas por alguns miúdos que imediatamente se ofereceram para me ajudar. Na chegada ao porto tive a primeira surpresa. Ao distribuir uns meticais pela miudagem ouço uma voz atrás de mim:

- Que é que estás a fazer? Não podes fazer isso. Está tudo preso!

Tudo preso! Bom, deve estar a referir-se a mim e aos miúdos. Mas porquê! Questionei o militar que me ameaçava, com as mãos ocupadas a segurar uma arma comprida e que pela expressão parecia tudo menos que estivesse a brincar.

- Porque não pode dar dinheiro assim, não pode ser, é proibido!

Proibido! Certo! Explico-lhe que eles me tinham ajudado e só estava a dar uma pequena contribuição por esse auxílio.

- Está bem, então já não está tudo preso. Tu podes ir embora, eles ficam presos!

Confesso que por vezes os meus neurónios demoram a entrar em processamento, e continuei a olhar para ele, a pensar onde deixara aquele homem vestido de verde a sua nave espacial. Ou então era eu que tinha aterrado noutro mundo. Mais uma vez retorqui que não podia fazer isso, eles não tinham cometido crime algum.

- Está bem, fica tudo livre, ninguém vai preso, – aproximou-se um pouco mais e continuou – e aqui o sargento está com uma sede grande, está muito calor… Vais buscar uma cervejinha para mim?

_________________________

Troquei dinheiro antes de entrar na discoteca. O câmbio foi fácil de fazer: uma nota de 500 escudos deu origem a dezenas de notas que perfizeram 5000 meticais. O restaurante da discoteca estava cheio, não havia lugar para jantar. Umas notas bastaram para ocupar a mesa do gerente. A galinha guisada estava deliciosa e a cerveja aquecia rapidamente na mesa, pelo que o melhor era bebê-la depressa antes que isso acontecesse. Os pares movimentavam-se na pista de dança, corpos esguios ao som da marrabenta que se soltava de umas colunas enormes suspensas na parede. Cerveja puxa cerveja e o ritmo da música leva-me a inventar uns passos de dança, que nunca passaram de fotocópias mal tiradas dos originais.

- Como te chamas?

Não se recordará nunca do meu nome. No táxi expliquei-lhe que os meus 5000 meticais tinham ficado na discoteca. Que eu era dela porque me tinha escolhido, não queria o meu dinheiro, replicou.

A casa era partilhada por três. Ela, uma prima e uma amiga. Ao entrar cruzei-me com um camarada de armas, do navio. “Maputo é pequena”, riu-se ele. Eu não consegui rir. A cama chamava-me e dormi até de madrugada. De manhã fizemos amor. Depois de um duche voltei ao navio, a pé e a sentir e descobrir novas sensações pelo caminho.

Acompanhou-me durante a semana. Conversámos, bebemos umas cervejas e jantámos algumas vezes. Nunca quis dinheiro. Dizia que apenas queria uma coisa, mas que me pediria no último dia.

Que chegou, depois de eu ter bebido aquele ar quente africano durante sete dias. Sete dias de sentimentos, alegrias e risos. O navio depois de três silvos agudos afasta-se lentamente do porto. A sua silhueta negra torna-se cada vez mais pequena e quase desaparece no horizonte. Um pequeno pixel que não abandona o cais enquanto o navio não se perder para lá do mar, em locais que ela nunca conhecerá. Ou então ficará ali, parada, à espera do próximo navio que chegue. E com ele novos ou repetidos sentimentos, alegrias e risos.

Não se recordará nunca do meu nome. Nunca quis dinheiro e fez-me o pedido oculto quando eu atravessei a prancha que nos separou, baixinho ao ouvido,

- Não te esqueças jamais do meu nome!

Prometi-lhe que sim.

Não se recordará nunca do meu nome. Mas eu hoje, depois de duas décadas, continuo a pagar-lhe a minha promessa.

Alta, um olhar profundo, pele negra e sorriso aberto.

Mariamo, é o seu nome.

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O Condutor

10/09/2009 · 11 Comentários

img006Confesso que ainda hoje tenho alguma dificuldade em perceber porque é que eles têm a categoria de condutor se quem conduz os comboios são os maquinistas!

Antigamente tinham funções alargadas, que passavam pela manutenção da documentação da carga do comboio, carregar e descarregar volumes, auxiliar nas manobras ou na visibilidade dos sinais de via. Com o passar do tempo e com a introdução de sistemas automáticos de segurança, a categoria de condutor perdeu força e actualmente apenas acompanham comboios de mercadorias e algumas marchas em vazio.

Mas dantes… Dantes era diferente!

Quando me apresentava para fazer o comboio, ficava naquele suspense até saber quem era o companheiro de viagem. Apenas para me preparar psicologicamente para o cheiro das batatas com bacalhau, das conversas sobre a horta , da amante que é prima da mulher ou, ainda, do som do ressonar que acompanhava os batimentos das travessas à passagem do comboio. Depois, ou dava um suspiro de alívio ao reconhecer um companheiro que faz com que a viagem seja mais alegre, ou dava um suspiro desesperado ao adivinhar um enviado do reino da complicação.

E há muitos anos atrás…

Vila Nova de Gaia. Pouco passava das dez da noite. Manobrava eu a máquina que ia rebocar um comboio de contentores para Alcântara Terra, quando o vejo a aproximar-se. Gingão, cabelo penteado para trás, meia bisnaga de brilhantina a solidificá-lo, barbeado e o ar impregnado de Denim ao entrar na cabine de condução. Fez um sorriso malicioso quando me viu,

- Boa noite! Então hoje temos um maçarico, hã! Um tenrinho na condução de comboios, um maquinista da CEE, hã!

Referia-se à minha pouca experiência em comboios de mercadorias, embora eu conduzisse outros tipos de comboios há mais de três anos. E tinha razão. Na verdade não estava muito à vontade na condução na linha do Norte, tinha aprendido caminho há pouco tempo e a sensibilidade para comboios de grande tonelagem só se adquire com o tempo. Aprender caminho consiste em fazer umas viagens acompanhado com colegas com mais experiência, de modo a ficar com uma noção dos pontos mais relevantes do trajecto.

- Mais um que eu tenho que ensinar. É sempre assim, aqui os condutores é que ensinam os maquinistas, isto não pode continuar desta maneira!

Ainda o comboio não tinha saído da estação e já eu estava farto do homem. Nunca tinha trabalhado com ele, não nos conhecíamos e teimava em falar, em chatear e em pôr-se em bicos de pés. E faltava tanto para chegar a Lisboa…

Terminei a manobra ao comboio e partimos, primeiro devagar, e pouco depois à velocidade esperada de 100 Km/hora. A noite estava límpida, com uma lua brilhante que deixava ver a linha e o espaço circundante com uma visibilidade excelente. Sempre gostei de trabalhar de noite. Menos stress, menos comboios, mais tranquilidade, diferente do ritmo mais acelerado que existe durante o dia. A viagem parecia perfeita, se não fosse…

- No meu tempo as coisas eram diferentes, não vinha ninguém para aqui sem conhecer tão bem a linha como o corpo da própria mulher! Ou melhor, da amante! Ahahahahah…

E ria-se imenso com as suas próprias piadas, que incluíam também companheiros cuja noite engolia à passagem pelas estações,

- Vai para dentro, ó paneleiro, estás aí a fazer o quê? Não vales nada, a noite inteira aí na estação sem fazeres um corno!

A pouco e pouco foi acalmando e à passagem por Aveiro já a cabeça pendia e uma respiração pesada saía da sua garganta. Melhor assim, pensei eu, ao menos tenho sossego. Mas o pior é que a respiração pesada depressa se transformou num ronco de fazer inveja a um urso e já não sabia o que era pior, se aturar as piadas do animal, se ouvir o animal a ressonar!

Foi então que me lembrei que os loucos se entendem uns com os outros! E surpreendi-me enquanto dava pelo meu corpo a fugir da minha consciência e a agir sem permissão para tal.

À minha frente tinha uma recta enorme, onde conseguia avistar três sinais luminosos verdes, os quais significam via livre. Atrás de mim ficava uma porta de um armário alto, onde se guardam os casacos e outros pertences, mesmo ao lado da porta de acesso ao exterior. E num repente, dei por mim dentro do armário, a segurar a porta com uma mão e com a outra a abrir a exterior. O ar frio da noite entrou como um furacão pela cabine enquanto eu lançava um grito lancinante que cortou a noite como um raio,

- AAAAAAAAAAAAIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!!!!!!!!!!!!!…………….

Tenho a certeza de que o meu colega de viagem demorou algum tempo a distinguir a realidade do sonho que devia estar a ter. No entanto, foi rápido em agir e imediatamente apertou o freio de emergência até o comboio se imobilizar num solavanco. Algum fumo soltava-se dos calços do freio e o barulho do compressor não conseguia sobrepor-se às lamúrias do pobre homem,

- O maquinista matou-se, o maquinista matou-se, atirou-se do comboio, ai a minha vida, ai a minha vida!

O susto foi ainda maior quando lhe bati levemente no ombro e me olhou com um olhar vazio e trémulo, que rapidamente passou a irado. Pensei que se não tinha morrido do salto que não tinha dado, teria boas probabilidades de morrer fulminado por aquele olhar assassino.

______________________

O comboio chegou à tabela a Alcântara Terra. Os tempos mudaram, agora existem sistemas de segurança eficazes que auxiliam na condução dos comboios, lendo a velocidade e os sinais, emitindo sinais sonoros e luminosos ao agente de condução. Gradualmente a função de condutor foi sendo colocada de parte. Mas ainda hoje recordo a frase que foi repetida centenas de vezes durante o resto da viagem até Lisboa, por um condutor gingão, cabelo penteado para trás e a cheirar a Denim, olhar fixo na linha do comboio,

- Só malucos! Esta empresa são só malucos… só malucos… só gente doida…

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País de Bonecos

27/08/2009 · 10 Comentários

País de bonecos

- neste país,
há mais armas do que bonecas!

As palavras saem em compasso rap, cantaroladas mecanicamente enquanto lava os carros no embarcadouro do Mussulo. O olhar é meigo e o sorriso largo e rasgado. Miguel Jacaré não tem mais do que 16 anos, corpo franzino. Usa uma t-shirt coçada, mas limpa. Anda descalço, como quase todos os colegas de profissão no embarcadouro que faz a travessia de Luanda para a Ilha do Mussulo. São rapazes que ajudam a estacionar, lavam os carros, guardam-nos e inventam mil e uma maneiras de ganhar mais uns kwanzas para o sustento diário. Num país onde o ordenado mínimo ronda os 60 dólares e apenas uma pequena parte da população lhe tem acesso, ficando a grande maioria entregue à sua sorte, inventam-se formas de ganhar dinheiro. Estas crianças não vão à escola, preferem antes ficar entregues ao dia a dia, ao sabor de alguns kwanzas que vão ajudando um orçamento mínimo numa família quase sempre composta por um grande número de elementos. E é vê-los pelas ruas vendendo tudo o que se possa imaginar, como electrodomésticos, pilhas, lâmpadas, mobílias, refrigerantes em sacos de plástico com gelo, enfim, um rol de mercadoria da qual irão buscar uma pequena percentagem das vendas, que não irá chegar para a refeição da família nem para a conta da farmácia.

- neste país,
há mais armas do que bonecas!

Conheci o Jacaré na primeira vez que fui ao Mussulo,

- por aqui meu grande chefe, vem à minha trás

enquanto entrava no descampado onde iria deixar o carro por um dia,

- eu guardo o carro, não vai ter maka em deixá-lo aqui, grande chefe

e eu a olhar para ele e a pensar que a sua alcunha viria do facto da sua boca mostrar duas fileiras de dentes brancos e certos, com um eterno sorriso, rasgado. Ao regressar, no final da tarde, lá estava ele junto ao jipe, com um coro já entoado de mil vezes o cantar,

- guardei o carro o dia todo, grande chefe, havia uns meliantes a querer roubar os espelhos do jipe, mas eu não deixei. Por isso, o grande chefe vai ter que me dar o valor dos espelhos, que era o que iria gastar para comprar uns novos…

Lá contas sabia ele fazer, e bem vistas as coisas, se me diz que me tentaram levar o carro, até teria que lhe pagar o valor total do jipe. Até foi amigo, o Jacaré. Mas enfim, levou o que todos levam, os 100 kwanzas da ordem, e lá foi ele cantarolando o seu rap depois de mais um dia igual a todos os outros.

- neste país,
há mais armas do que bonecas!

Vi-o mais um par de vezes. Sempre o mesmo sorriso. Sempre a mesma cantada,

- grande chefe, estão a chegar as Boas Festas, não pode dar mais nada?

frases e pedidos batidos dezenas de vezes ao dia por toda a cidade, que são impossíveis de atender no seu todo. Na última vez pediu-me emprego. Em qualquer coisa. Uma oficina, serralharia. Nunca estudou nem tem nenhuma especialização. Passou a vida na rua, a negociar o que lhe davam para vender e a lavar carros.

Hoje comprei o Jornal de Angola, hábito que adquiri diariamente. E o choque foi brutal! Na página de ocorrências policiais, li que o Miguel Jacaré, lavador de carros no embarcadouro do Mussulo, foi morto quando surpreendido a entoar uma música rap. A letra da música ironizava um país onde há mais armas do que bonecas. Mais à frente li que os assassinos foram detidos, e eram militares pertencentes à Unidade da Guarda Presidencial. A notícia advoga, ainda, que não se confunda a delinquência do crime com a instituição a que os criminosos pertencem, e que este crime hediondo e bárbaro será investigado e a verdade será apurada.

As injustiças da vida perduram no dia-a-dia e subsistem em todos os tipos de países, sejam eles democráticos, autocráticos ou democrático-ditatoriais. Cruzamo-nos diariamente com notícias aflitivas de quem perdeu a vida em catástrofes naturais, doenças, erro humano ou homicídios voluntários ou involuntários. Mas, não há memória de alguém que em pleno século XXI tenha perdido a vida porque cantarolava a sua canção preferida num país de bonecos…

Ao longo do tempo as revoluções têm alterado regimes, sociedades, formas de estar e de pensar. Miguel Jacaré era feliz com o pouco que tinha e com o muito com que sonhava. E a felicidade de cada um começa com a melhor coisa que nos foi concedida: a Liberdade de cantar. Canções de Natal. Canções de embalar. Canções da vida.

- neste país,
há mais armas do que bonecas!

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O Sonho de Lia

08/08/2009 · 5 Comentários

LiaNaquela noite, Lia teve um sonho. Depois ficou acordada, deitada de costas, com as mãos atrás da cabeça, enquanto tentava recordar-se do que lhe tinha invadido a mente enquanto dormia. Ficou imóvel até a escuridão se tornar cinzento-azulada, e depois tomou um banho. Já estava atrasada para iniciar as lides do dia, e sabia que a madrasta em pouco tempo estaria a solicitar os seus serviços. Enquanto enchia a tina de água morna, recordava novamente o sonho, e pressentia-o como algo de bom que lhe iria acontecer. Algo que modificasse a sua vida, tão escravizada, tão cativa e tão privada de brincadeiras, de risos e de felicidade. Lia sorriu por entre os cabelos aloirados, como há muito tempo não sorria. Desde que perdera a sua mãe, nunca mais uma gargalhada brotara da sua garganta. Desde então, Lia estava ao cuidado da sua madrasta, que na verdade era uma tia afastada, mas que fazia questão que a tratasse como tal.

Faltava pouco para o sol começar a incidir por entre as janelas do enorme casarão onde viviam as duas. Dele faziam parte inúmeras galerias e quartos que Lia se encarregava de limpar, esfregar, lavar e voltar a limpar. As refeições estavam também a seu cargo, assim como o cuidar do jardim e a lavagem da roupa. Além de tudo isto, tinha ainda a obrigação de servir a sua madrasta em tudo o que fosse necessário, desde dar-lhe banho, deitá-la, ou até mesmo levar-lhe um simples copo com água.

-Lia! Prepara-me o banho e faz-me o pequeno-almoço.

Mais um dia que começava, um dia igual a tantos outros, com a companhia do trabalho e do sofrimento, com a esperança de uma liberdade que sabia perdida. Mas algo lhe dizia que este dia iria ser diferente!

O ocaso surge na tarde, e Lia, com os seus catorze anos, trabalha com a força de vinte mulheres, de maneira a poder descansar os trinta minutos habituais desta altura do dia. Sabe que é habitual a madrasta dormitar enquanto admira o pôr-do-sol, e aproveita esse tempo para se refugiar num dos sótãos da enorme casa e aí poder viajar nas histórias maravilhosas e fascinantes dos poucos livros que trouxera de casa da sua mãe. Sentia então a frescura dos mares e o calor dos desertos, montava a cavalo nas pradarias, vales e montes, corria na savana tropical ao lado de tigres, elefantes e girafas. Era o prazer momentâneo de se sentir livre e feliz, este que Lia experimentava nesta meia hora diária de satisfação.

- Onde estás?! O jantar já está pronto?! As velas já estão acesas?

É o retomar do trabalho, o apagar do sonho. Lia sabia que dificilmente se livraria deste modo de vida, desta escravidão herdada, embora continuasse a sonhar. O sonho, o dessa noite, não lhe saíra ainda do pensamento. Recordava-se vagamente de haver muita luz e calor, mas não conseguia reconstrui-lo totalmente.

Lia ajuda a madrasta a despir-se e espera que esta se deite. Como sempre, aguarda que ela adormeça e só depois deste ritual imposto se dirige para o seu quarto. O cansaço e a fadiga invadem-na. Pousa a vela na mesa-de-cabeceira e começa a despir-se. Os olhos quase cerrados fazem esforço para se manterem abertos. Deita-se, e antes de cair num sono profundo, tem ainda tempo de viajar um pouco pelos mundos fascinantes que nunca conhecerá…

A brisa que corria no ar é agora mais forte. Pouco tempo falta para surgir um vento frio que invade o espaço e penetra pela janela aberta do quarto. Lia vira-se para um lado, e pouco depois para o outro. O sonho da noite anterior, voltou-lhe a ocupar a mente. Calor, muito calor e muita luz. Uma lufada de ar mais forte. A vela tomba e rebola para baixo dos cortinados. O calor aumenta e a luz, minúscula de início, torna-se maior, e maior, e maior…

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Um garoto brinca nos destroços onde outrora existira uma casa. Uma casa enorme, onde vivia uma velha muito má, constava-se. Mas, segundo lhe contaram, vivia também uma menina muito boa, talvez uma fada ou um anjo. Ao brincar descobre um objecto, talvez o único a escapar inteiro a um grande incêndio que ali houvera. É um livro! O garoto folheia algumas páginas e detém-se numa figura que lhe causa admiração. Como ele gostaria de estar no lugar daquela menina alourada, com lábios finos, que corre repleta de felicidade na savana tropical ao lado de tigres, elefantes e girafas…

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A Ovelha

31/07/2009 · 14 Comentários

Ovélha- E você não parou? Devia ter parado, pá! Isso é grave…

A face pálida e o ar preocupado do revisor deixou-me perplexo. Também comecei a mudar de feições. Mas afinal tanta preocupação por causa de uma ovelha. Que história esta!

Tudo tinha acontecido há pouco tempo, coisa de minutos. Enquanto deslizava pela lezíria ribatejana ia recordando o curto trajecto de admissão para maquinista. Tinham sido as provas de aptidão, os testes médicos e psicotécnicos, o curso de formação técnico e regulamentar de oito meses no Entroncamento e, finalmente, a admissão na empresa. Era o primeiro dia em que conduzia sozinho, depois do acompanhamento feito pelo inspector de tracção, no dia anterior. Parecia que faltavam mãos e pés para tantos manípulos, botões e pedais. A atenção era redobrada e os sentidos estavam bem alerta. Os olhos percorriam os instrumentos de sinalização da corrente, do sistema pneumático e da velocidade, enquanto procuravam o livro horário para saber se o comboio seguia no limite de tempo definido. Os ombros rebentavam com o peso das cem toneladas da automotora e dos cerca de trezentos passageiros que viajavam na composição. Apesar de tudo, o prazer e a alegria do novo emprego acalmavam o peso da responsabilidade. No entanto, acabou por acontecer…

- Mas conte-me lá como foi? Como é que isso aconteceu? – o revisor continuava com o ar de quem está a ter um pesadelo e não consegue sair dele. Eu comecei a preocupar-me mais,

- Como foi? – brinquei – sei lá, foi suicídio, o comboio ia a passar, ela deu um salto e atirou-se para a frente da composição!

Na verdade, nem eu sabia muito bem como tinha acontecido. Fora demasiado rápido. Muito perto do Carregado, o rebanho de ovelhas pastava junto à linha de caminho de ferro. A manhã estava quente e reluzente, o verde da lezíria perdia-se no brilho do meu olhar quando ela saltou. Ao escutar o ruído do comboio a aproximar-se, todo o rebanho se afastou, excepto uma ovelha grande e desnorteada que correu para o lado errado e deu um salto impressionante indo embater mesmo em cheio na frente da automotora. A sensação foi indescritível, o ruído de carne e ossos a serem dilacerados pelas entranhas do comboio, colidiu com o susto de novato nestas andanças, de maquinista sem estaleca para saber decidir no momento. Coisas que se aprendem com o tempo, dir-me-iam mais tarde.

- É pá, devia ter parado! E agora o que vamos fazer? Vão-nos cair em cima por não termos parado e procedido de acordo com as normas regulamentares.

E eu ia pensando que nos meses de instrução regulamentar, que até concluí com uma média alta, nunca tinha lido nada sobre efectuar paragem em caso de atropelar uma ovelha. E por isso mesmo tinha optado por seguir a marcha normal, já que não notei alteração alguma no funcionamento e na circulação do comboio.

E agora ali estávamos nós. Por ter sido alertado pelo barulho, o revisor entrou na cabine e perguntou-me o que tinha acontecido, parecia que tínhamos passado por cima de alguma coisa, tinha dito.

- Passámos sim senhor, apanhei ali atrás uma ovelha, quem vier a seguir que apanhe os bocados.

O homem empalideceu. As palavras não lhe saíam, a expressão alterou-se.

- Não me diga uma coisa dessas. E você não parou? Devia ter parado, pá! Isso é grave!

A face pálida e o ar preocupado do revisor deixou-me perplexo. Também comecei a mudar de feições. Mas afinal tanta preocupação por causa de uma ovelha.

- Não parei porque não vi necessidade. Não havia nada a fazer, ia parar para quê?! – respondi, tentando ao mesmo tempo convencer-me a mim próprio de que agira correctamente.

- Mas conte-me lá como foi? Como é que aconteceu? – o revisor continuava com o ar de quem está a ter um pesadelo e não consegue sair dele. Eu comecei a preocupar-me mais.

- Como foi? – respondi – sei lá, foi suicídio, o comboio ia a passar e ela deu um salto e atirou-se para a frente da composição!

Nesta altura já me imaginava com um processo disciplinar, dias de castigo, repreensões por escrito, despedimento sumário, tudo pensei, graças à imbecilidade de uma quadrúpede herbívora que decidiu dar-me cabo da vida logo no meu primeiro dia de emprego.

O revisor continuava estático, nas suas decisões interiores e, enquanto cofiava o bigode, perguntou-me uma vez mais, com uma voz calma, serena e desconfiada,

- Suicídio?! Mas para se atirar para a frente do comboio, era velha para que idade?

Fiquei a olhar para ele um segundo que pareceu um dia, enquanto o meu corpo relaxava e na minha mente se fazia luz. A alegria voltou a tomar conta de mim e o verde da lezíria voltou a perder-se no brilho do meu olhar. Rompi numa gargalhada sonora e contagiante, que ainda o fez sorrir sem saber porquê, enquanto muito a custo me perguntava,

- Qual é a piada, afinal o que aconteceu?

E eu explodi alegremente na explicação do engano que nos tinha assustado a ambos:

- Não foi uma velha! Foi uma ovelha!

Creio que ele percebeu imediatamente a parecença fonética da palavra que nos traiu. A boa disposição reinou na cabine de condução, no meio de umas gargalhadas, enquanto os músculos do corpo calmamente se distendiam e as cores da pele voltavam à normalidade.

Ainda hoje quando nos encontramos, passados que foram quinze anos sobre este episódio, pergunto-lhe sempre,

- Então, e a velha?!…

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A Viagem

25/07/2009 · 14 Comentários

A ViagemA brisa sopra lenta e fria. O enorme navio destaca-se dos seus companheiros, flutuando nas águas calmas do Tejo. As luzes rendem o escuro em partes do horizonte. Ao longe ouve-se um barco e o ruído do seu motor confunde-se com o murmúrio das águas. Agasalho-me melhor e acendo um cigarro. Olho o fumo que se desvanece no espaço, e ao mesmo tempo perco-me com ele… e sonho!

“- Atenção guarnição, preparar para atracar!”. Mais um porto, mais um país, mais mentalidades, gostos, diferenças. Mais personagens num palco, qual teatro ambulante que quer conquistar o seu público. As pancadas soaram, vai começar o primeiro acto. A baía surge-me cheia de encanto, com a beleza das águas e a sedução das palmeiras. A barbatana de um tubarão torna-se visível. Uma manta gigante salta à proa do navio e mergulha aparatosamente. Aproximo-me cada vez mais do palco e observo o desenrolar da cena, sem dúvida alguma, magistral. Mas quero mais, muito mais. Sento-me nos camarotes, passo para o balcão, subo para o palco e acabo por entrar nos bastidores. Solto um brado aos céus, tropeço num trovão e arrasto-me num dilúvio. Quero um ancoradouro, uma bóia de salvação, mas vou à deriva num turbilhão de dor, num afluente de sangue, num vendaval de tristeza, num remoinho de guerra… Tudo parece fictício, irreal. Quero abrir os braços e gritar, com a força necessária para o mundo me ouvir. Quero que o mundo entre num palco sem bastidores, onde as fantasias e coisas boas sejam uma constante, onde o bem-estar surja recheado de felicidade. O mundo não me escuta, ninguém me escuta. Não suporto este cheiro a fome, esta cor da miséria. Não, não há razão para existirem bastidores assim. Vejo uma luz, uma mão estendida que agarro tenazmente e regresso ao meu camarote onde espero pelo terminar deste Hamlet em cinco actos. O espectáculo chega ao fim, o navio guina a estibordo, solta três apitos curtos e sai majestosamente da baía em direcção ao alto mar. No ocaso vislumbra-se a silhueta de uma baleia. Penso nesta espécie em extinção… e penso nos bastidores de todo o mundo, que são cada vez mais… e mais.

Lisboa está parada, quem sabe pelo frio que agora se faz sentir. Caminho devagar, pois ainda falta algum tempo para a partida do barco que faz ligação ao Barreiro. Não sei a que horas chegarei ao meu destino. Bebo um café para aquecer a alma e engulo mais um cigarro…

“- Toma um cigarro, pá, é bom para o enjoo.”. Estou nisto há cinco dias, já me habituei a dormir agarrado ao beliche. As vagas batem na proa e estremecem todo o navio. As cadeiras atropelam-se no refeitório, os tachos rebolam-se na cozinha e as portas dos armários batem ao som dos lamúrios. Não tenho medo – isso não! – mas muito respeito. Uma destas já eu não apanhava faz tempo. Subo à ponte para apreciar melhor o espectáculo. O navio é engolido momentaneamente pelo mar, a espuma cobre os vidros e desaparece para dar lugar a um relâmpago avassalador. Fico petrificado, maravilhado com esta aterradora beleza. Sinto-me eu próprio ser um trovão repleto de energia e vibração. Sou engolido, devorado, mas abraço o mar; sou pisado, mas beijo o céu; sou empurrado, mas amo o vento! Tenho horas, meses, anos de mar. Ptolomeu foi enganado e enganou-se a ele próprio: a Terra não foi, não é, nem nunca será redonda, pois eu mesmo estive nos quatro cantos do Mundo. Conheço a cor dos continentes, distingo os diferentes cheiros dos mares e oceanos, nadei com tartarugas, saltei com golfinhos, dancei com ninfas na Atlântida perdida, cumprimentei Neptuno ao passar o Equador… O odor a maresia não me sai do nariz, o salitre não me sairá jamais da pele.

A estação está quase deserta. Dúzia e meia de passageiros e acompanhantes vagueiam pela gare, qual tablado de almas funambulescas. Olho os dramas sem voz, os seus silêncios eloquentes. Entro na carruagem salão, escolho um lugar junto à janela e estudo os meus companheiros de viagem. Uma mulher magra e pálida, crianças agarradas à saia, que vai em busca de trabalho para terras de onde talvez nunca mais volte… Um magala bisonho que se despede dos pais e da namorada, que antes de partir já sente saudades dos beijos dessa cachopa… Um emigrante que após anos de exílio, regressa ao lar, com uns cêntimos a mais no bolso e uma nova esperança… Um enfermo que teve alta do hospital e regressa solitário ao conforto da sua casa… Há uns que dormitam, outros que passam os olhos pelo jornal do dia, outro ainda que petisca um naco de bacalhau seco e bebe uma golada da garrafa de litro, que guarda religiosamente. Olho pela janela uma velhota tímida que ronda a plataforma, enfiada num xaile preto, dias seguidos à espera do filho que nunca chegará, e com ele a alegria e o pão da sua velhice, há muito abandonada. Soa um apito. O comboio distende-se devagar, enquanto um frémito agita a carruagem. Aqui e acolá alguns adeuses, caras discretas, desoladas, cortadas pela separação. A vida é como o mar que me apaixona. Uma onda que fica, outra que parte…

Também ela acabou por partir. Eu fiquei! Estava convencido que não passara de mais um caso, como tantos outros. Abri a gaveta e fechei-a lá dentro. De dia era um profissional, competente e dedicado. De noite, boémio, nómada, estroina ou vagabundo. Comprava comida se tinha fome, comprava bebida se tinha sede, comprava carinho se me faltava amor. Dormi em camas largas, estreitas, alcatifas, bancos de jardim. Por vezes até nem dormia, porque a minha paixão pela noite aumentava cada vez mais. Nessas noites de calor tropical, era atacado por boas disposições hilariantes, ou apartava-me do mundo e caía numa melancolia saudável de solidão. Foi numa noite assim que ela fez a sua primeira aparição. Cabelos soltos ao vento, olhos rasgados e misteriosos, repletos de interrogações, vontade de conhecer e aprender. Lábios sensuais, ansiosos por um toque, por um beijo, um desejo… Aconteceu! Nesse local onde o espaço se abriu e o tempo parou, senti a liberdade de uma ternura primaveril. Senti ao sabor das ondas a agitação para um carinho, entre um copo e um cigarro caí na ilusão de um abandono. Lembro-me do olhar feliz, por vezes triste, com a simplicidade da chuva que cai, para dar lugar ao calor de um sorriso. Lembro-me de um corpo voluptuoso e lascivo misturado com o céu e a relva, do sabor a sal de uns seios belos e firmes, qual penhasco erguendo-se sobre as águas… E foi sob um luar prateado envolto em mil luzes, que troquei vendavais por calmaria, vivi o sonho, a vida, a poesia do momento, sem saber o que o coração iria dizer depois… Estava convencido que não passara de mais um caso. Ela acabou por partir. Eu fiquei… por pouco tempo!

Sinto que me tocam. É o revisor que me pede o bilhete. Já venho a dormitar há algumas horas. O comboio passa rápido na noite gelada. Guardo o bilhete e observo os meus companheiros de viagem. Quase todos dormem balanceados pelo trepidar da carruagem e com a ajuda do quentinho que sai por baixo dos bancos. Parámos agora numa estação mergulhada no escuro e na solidão. Parece uma cabana na imensidão da terra hostil e desprotegida, ladeada por matagais e coberta por uma camada de geada. Não entra nem sai ninguém, e recomeçamos novamente a marcha. A estação fica outra vez solitária na noite. Desesperadamente perdida, clama o abandono, como um náufrago sobre uma jangada num mar escuro.

Portas, janelas, frinchas, tudo cerrado ao assalto do frio exterior. Um frio que escreve lágrimas nos vidros, que vão caindo à medida que o comboio avança. Já não tenho sono, e observo o magala que dorme estendido ao comprimento do banco. Por vezes ressona, geme e arfa como um fole. Também já tive a sua idade, e nem tudo, afinal, eram aborrecimentos. Deliciava-me a aventura dos meios diferentes, outros costumes, novas caras, viagens inesperadas em que colhia um rol de novidades. Por outro lado, eram os dissabores de uma abalada súbita no meio de um divertimento, um bom sono interrompido, um serviço para fazer… Ossos do ofício, dependentes sempre de ossos humanos.

Quando chegarei? Terá fim esta viagem? Olho para fora, para a noite escura… Apetece-me sentir o frio. Abro a janela e debruço-me enfrentando o vento. Será o mesmo vento que tantas vezes senti ao cruzar os mares e oceanos? Ao longe uma luzinha verde brilha na escuridão. Aproximamo-nos velozmente. A mulher da passagem de nível está enrolada num xaile e segura a lanterna que nos dá via livre. Encolhe-se à nossa passagem. Que frio!

No interior todos dormem. Suprema descuidança! Nenhum dos passageiros, aninhados como pardais no aconchego da carruagem, se apercebeu que as suas vidas estiveram um minuto escravas dessa fagulhita verde, erguida ao alto pelo braço daquela mulher. Sedentos de alegrias cada vez mais próximas, nenhum deles teria imaginado que algumas almas soterradas na noite sacrificam pelas deles as suas humanas venturas.

Quando chegarei? Terá fim esta viagem?…

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